quarta-feira, 14 de julho de 2010

William Faulkner, A Fábula


 
« Então fica com o mundo — disse o velho general. — Eu reconhecer-te-ei como meu filho; juntos fecharemos a janela sobre esta aberração e trancá-la-emos para sempre. Depois abrir-te-ei outra num mundo que nem César nem sultão nem khan alguma vez viram, que nem Tibério nem Kublai nem todos os imperadores do Leste alguma vez sonharam, nem Roma ou Baiae, um mero depósito para a rapina de salteadores e bagnio para uma derradeira exaustão de estruturas terminais dos seus axónios antes de regressarem aos seus desertos sombrios para arrancarem mais de um ou enfrentarem no lar as facas contratadas dos seus subalternos imediatos e ávidos para os curar da necessidade de ambos 1

 
Poucas vezes um dos mitos fundadores da cultura ocidental terá sido reencenado com a força subversiva que encontramos neste livro tardio de W. Faulkner. Este é um romance que transporta para o século XX algumas das estruturas narrativas fundadoras do Ocidente: a figura do Filho, (o cabo — um Cristo obscuro e relutante) e a figura do Pai (o general — um todo-poderoso que funda o seu poder na recusa do próprio poder) são os centros de um relato de matriz bíblica complexo e perturbante.
Iniciado em 1944, em plena barbárie da Segunda Guerra, Faulkner regressa neste livro ao cenário da Grande Guerra para desenhar um exercício de resistência passiva: na manhã da batalha, diante da ordem de avançar, todo um regimento se imobiliza nas trincheiras. Pouco pode a máquina de guerra contra a vontade da não acção. Mais do que Bartleby, há aqui uma subversão da ideia de poder e de civilização. Viralmente multiplicável, mais destrutiva do que a própria destruição, a inscrição do indivíduo e da vontade no interior da máquina de guerra coloca a nu a natureza da civilização.
A matriz crística é mais implícita do que explícita. No filho, prometido à morte e à ressurreição, não há sequer esperança de redenção. No pai, um predilecto da natureza e da civilização, a estranha coincidência num mesmo sujeito do poder e da culpa torna paradoxal cada um dos seus gestos. Veja-se, no texto bíblico, o momento modelo do trecho transcrito:

« O demónio tornou a levar Jesus, agora para um monte muito alto. Mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e as suas riquezas. E disse-Lhe: «Dar-Te-ei tudo isto, se te ajoelhares diante de mim, para me adorar». Jesus disse-lhe: «Vai-te, Satanás, porque a Escritura diz: “Adorarás ao Senhor teu Deus e somente a ele servirás”». 2

Note-se, no texto de Faulkner, a coincidência da figura do pai (um deus, a ser deus, estranhamente desprovido de si mesmo) e da figura do mal (um demónio que nem sequer no mal acredita). Se o texto bíblico se funda ele mesmo sobre a confiança no texto e na palavra, o livro de Faulkner funda-se na dúvida sobre o próprio livro. Uma dúvida que se multiplica com a intensidade de um consciente e reiterado movimento de profanação e ressacralização. Não há livro capaz de redimir a culpa ou modelar a verdade. O livro é apenas o registo dessa impossibilidade.
Frequentemente tido como um romance menor no percurso do escritor, A Fábula é um livro que por si só bastaria para moldar o nome de um autor. É um livro pensado para ser uma obra-prima, e é possível que não o seja. Desmesurado na ambição e na construção narrativa, é um livro talvez condenado à imperfeição, mas com uma espessura de escrita que mesmo em Faulkner surge como rara.



 
1. William Faulkner, A Fábula, trad. Maria João Freire de Andrade, Casa das Letras, 2009, p.266.
2. Mateus, 4-8, Bíblia Sagrada, Edições Paulus, 1997.