sexta-feira, 13 de agosto de 2010

J. M. Fonollosa, “Channel Gardens”



« Foram quatro, sim, quatro e uma faca.
Já a lua morrera um dia antes.

Seguraram-lhe os braços pelas costas
e a roupa deparou com o sabor do campo.
Eram doces suas pernas. Como o vinho.

Oito olhos muitas vezes se alternaram.
Parca foi sua defesa. Eram quatro, os homens.
Pude soltá-la passado um bocado.
Comigo pôs-me o braço ao pescoço.

Fomos quatro, sim, quatro e uma faca
que naquela noite no cinto me surgiu.
Morreu sem daquele meu abraço se soltar.

Não sei onde isto foi. Não me recordo.
Eu costumava ir a muitos sítios.» 1

Como representação, o mal constrói-se num misto de atracção e de repulsa. Objecto de desejo ou objecto de aversão, há no prazer da representação daquilo que se assume como vedado alguma coisa que não é inteiramente racionalizável. A produção, enquanto arte, daquilo que se recusa enquanto realidade é talvez um dos mais fundos paradoxos da experiência estética. Não se faz problema pensar a arte como representação de um qualquer estado ideal — tratar-se-ia de, através do texto ou das imagens, produzir enquanto representação aquilo que objectivamente a realidade negaria. A arte constituiria um suplemento de irrealidade destinado a colmatar as falhas do real. Distinto é entender a literatura e as artes, como lugar de transformação do mundo, e distinto é, ainda, entender as artes com o lugar de produção daquilo a que, racionalmente, se optaria por recusar existência objectiva.
Este texto de Fonollosa constrói-se num misto de volúpia quase física e da consciência implícita não exactamente do ilícito, mas do desumano da narrativa. A mesma violência cínica atravessa não apenas muitos dos textos do autor, mas sobretudo muitas das representações que a literatura e as artes nos propõem ao longo da história. É manifestamente mais fácil fazer arte de maus do que de bons sentimentos. A estes, falta quase sempre o suplemento de força susceptível de conferir a uma representação a capacidade de se sobrepor à própria realidade. De se lhe substituir, transportando para o leitor ou espectador parte do seu peso de dor e sofrimento.



1. J. M. Fonollosa, “Channel Gardens”, Cidade do Homem: New York, trad. Júlio Henriques, Edições Antígona, 1993, p. 98.