quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Aquilino Ribeiro, Andam Faunos Pelos Bosques




      O modo como se organizam as palavras para dizer o mundo não é independente do mundo que é perspectivado a partir das palavras. Parte importante da relevância de um texto decorre da relevância reconhecida ao mundo que ele se inscreve ou que ele propõe. Por isso, dizer o mundo através das palavras é produzir uma representação que pode ou não sobreviver à estrita indexação ao tempo e à linguagem em que se produz. A estranha e quase improvável perenidade de alguns textos antigos, como os textos homéricos ou os textos bíblicos, dever-se-á tanto ao seu valor intrínseco (que os torna capazes de ultrapassar o abissal desfasamento de mundo e de língua entre o seu contexto de produção e os contextos de recepção), como ao facto histórico de eles mesmos terem moldado através dos séculos o seu contexto de recepção.
      A perenidade no Ocidente de muitos textos antigos deve-se em larga medida ao facto de o Ocidente ter sido configurado a partir desses textos: por exemplo, a relevância de Platão ou dos textos bíblicos decorre hoje de continuarmos matricialmente platónicos e judaico-cristãos. O desfasamento de mundo e de língua entre a antiguidade e as diferentes contemporaneidades ao longo dos séculos não obstou a que um mundo de que tais textos eram matriz se pudesse continuar a rever neles, mesmo que de um modo reactivo.
      Diferente será pensarmos como, fora destes textos fundadores, o tempo e a história corroem a legibilidade de numerosas obras. Não é apenas a transformação histórica que age sobre elas, é muitas vezes a própria língua que perde as condições de uma inteira legibilidade. Uma mesma transformação afecta uma configuração do mundo e a língua que a diz, mas esta transformação atinge por vezes uma tal intensidade que ameaça que um dado uso da língua se torne ele próprio vestígio arqueológico de um mundo desaparecido. E isto muito para além daquilo que seria a sua inteligibilidade linguística ou, em termos estritamente literários, a qualidade da escrita.

      No espantoso romance de 1926, Andam Faunos Pelos Bosques 1, Aquilino Ribeiro coloca-nos diante do confronto entre um Portugal interior e arcaico e uma revolução sexual desencadeada pela presença nas serranias de uma criatura que, se primeiro ataca as donzelas, se limita depois a receber aquelas que voluntariamente se lhe entregam:

      « Donzelinhas, mal a pojar dos seios, foram oferecer-lhe a flor temporã da puberdade. As casadoiras, no primeiro abrir mão da família, moscavam para ele. (…)» 2

      A nunca desfeita ambiguidade da criatura (anjo, homem, demónio?), a precoce afirmação da emancipação feminina, os marcados recursos de interpretação do fenómeno à disposição das personagens (os textos de tradição religiosa e os da antiguidade clássica), fazem deste o romance efabulatório, satírico e dramático, de um mundo à beira do abismo.
      Centremo-nos apenas num episódio. Confrontados com a ameaça, a primeira resposta das populações serranas é dar caça ao bicho: a batida assume contornos de gesta mítica e epopeia de heróis. A descrição das rudes populações que emergem das serranias para o cerco constitui um verdadeiro “catálogo das naus” da gente arcaica que povoa a montanha. Veja-se um exemplo:

      «(…)
      Àquela hora, façanhudas, hirsutas e jactanciosas como as falanges gregas de proa à cidade santa de Tróia, teriam salvado as portelas humildes e vales ubérrimos de suas terrinhas natais.
      De nascente, a escalar a serra da Lapa ou as lombas do Carregal, rompiam as populações ribeirinhas do Távora, desde Ponte do Abade, locanda entre quatro caminhos, a Vilar, aldeola de saibro e almagre. Endurecidos nos macadames e Baceladas, tão dóceis à mão de veludo como soberbos na desafronta, traziam espingardas de caça, bacamartes de guardar as vinhas, pistolas e paus de choupa — corredores que eram de arraial. Gente do brando falar, acaudilhava-os o Meneses, da Faia, e não eram menos de trezentos.
(…)
      Do setentrião avançávamos homens de Tarouca, Mondim e Sever com párocos à cabeceira. Precedia-os Alvite, colmeia de chatins e belfurinheiros, pequenos de talhe e anegrelhados de tez, mestiços de cigano e moiro. Consumados andarilhos, singularmente sóbrios, peritos em malas-artes e traquibérnias, ladros e laboriosos, sanguinários e mesquinhos, carapuço de pierrot na cabeça, faixa à cinta de muitas voltas, traziam, além de bordões ferrados, o revólver de contrabando e o cuchilo de três estalos. E eram os caras tisnadas, com os vizinhos, mais de duzentos e cinquenta.
      De Nordeste haviam-se aparelhado para a acometida as povoações bárbaras de Várzea da Serra, Almofala, Monteiras e Quijó, que sonham há mil anos «com a batalha que um dia se há-de travar na sua chã imensa para depois se acabar o mundo». Rostos esculpidos no granito e recobertos de musgo, com burjacas de burel ao ombro, socos de tromba alta, apresentavam-se daquela banda, mercê das foices, estadulhos de carvalho, lazarinas, uma estrepe de levar tudo raso. Conduzia-os um alentado cura, pai de filhos e famoso batedor de lebres. Gente de olhos leais, espantados, não eram menos de duzentos.
(…)» 3

      Ao longo de várias páginas vemos erguer-se do interior da terra e da história uma multidão rude, mas nobre, de traços sublinhados pela escrita, que configura um peso e uma espessura de identidade que mal cabem na imagem que o século XX português construiu de si mesmo. Há no vocabulário de Aquilino muitos termos que já escapam ou começam a escapar a uma leitura imediata, mas há sobretudo um mundo desapareceu — que desapareceu, mesmo se permanecem as gentes e as pedras, os lugares e a memória.
      É esta extrema indexação do texto a um mundo e a um uso da língua condenados que parece estigmatizar a escrita de Aquilino, fazendo dele um escritor “regional”. A não modernidade do contexto narrativo e a ruralidade do cenário parecem comprometer a perenidade do texto. O romance escreve-se num mundo já desaparecido, numa língua em transformação por perda dos seus referentes, numa realidade que talvez não esteja suficientemente remota para que possa ser objecto de curiosidade, mas que já está suficientemente distante para impedir o reconhecimento e a identidade. E, no entanto, não haverá no século XX português muitos livros que, como este, mereçam ser tomados como clássicos — da língua e da identidade.





1. Aquilino Ribeiro, Andam Faunos Pelos Bosques, Livraria Bertrand, 1979.
2. Idem, 182.
3. Idem, 52-54.