quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Leonel Brim, Os Pés do Cordeiro


 

Este é um livro raro na literatura portuguesa: um texto pensado, trabalhado, fruto de um projecto de escrita que não vive da necessidade de ocupar o espaço mediático — que não vive dele, nem para ele.
Publicado em 1999, o romance anterior de Leonel Brim, Magistério e Desgosto, colocava-nos diante de uma encenação intensamente subversiva do século XX português, uma encenação marcada pela formalização retórica de um olhar cínico e derrisório.
É o mesmo registo, o mesmo contexto cénico, o mesmo olhar intensamente estilizado que encontramos em Os Pés do Cordeiro 1. Há uma sobrecarga retórica que marca o desenvolvimento das personagens, mas que marca sobretudo o registo linguístico em que se inscreve: satírico, rebuscadamente encenado no burlesco da erudição da língua.
Muitas destas características já se encontram em Magistério e Desgosto, mas são aqui levadas até um paroxismo de estilização, resultando num texto que, a menos que se aceitem verdadeiramente todos os seus pressupostos retóricos, será quase ilegível para um olhar mais desatento.
Num romance de mais de quinhentas densas páginas, assistimos ao deambular das personagens, sem que haja um claro privilégio de qualquer delas. A multiplicação das perspectivas corresponde a parte da estratégia de questionamento, paradoxal, da congruência semântica. Há um imaginário comum às diferentes personagens, mas é através de uma veemente manipulação da língua que se efectua a construção da perspectiva e do imaginário. Mais do que aquilo que é explicitamente enunciado, é a manipulação do discurso que produz a distorção perspectiva que constrói o mundo: seja através de arcaísmos, seja através de formulações rebuscadas até ao absurdo, aquilo que resulta é (e esta não é exactamente uma enunciação de influências ou pertenças literárias e estilísticas) um universo que parece ser o resultado do cruzamento pessoal e inventivo entre Joyce, Céline, Thomas Pynchon e João César Monteiro:

«Pelos tempos que vivemos, não maus por essência, reconheça-se, o fio de prumo do legislador comporta-se, não raro, mais como pêndulo geomântico. E que Santa Fressura Seclusa nos acuda, pois temos dinheiro empatado em publicidade que acirrou birra como se prática dolosa fora. Sempre o problema de há pouco. Conversa-se mas não há vivência. Admito, Brustos, redigiu a ganância. Mas…ora aí está! O Promotor queria impacto. E lá o teve. “Cedo duas portas numa coutada de conas”. … Impacto. Mas stricto sensu onde está escrito que as espécies abatidas recebem uma percentagem? … Nenhures. Paga-se o direito de admissão e está visto. O feito a cada um pertence. Oh S. Provenzano Luparo! (…2

O imaginário intensamente sexual (o olhar é quase estritamente masculino) constrói-se, num pano de fundo de religiosidade sacrílega, através de uma linguagem em que o calão e a erudição se aliam num processo de simultânea mitificação e desmitificação da própria sexualidade: não há verdadeiramente outro sentido ou outra linha de leitura para o mundo, mas mesmo isso é apenas aquilo que é — quase nada.
O livro é a mais de três quartos construído por diálogos, suportados por uma estrutura narrativa elementar e quase sempre apenas pretexto para a encenação das personagens. Estas, apesar do sobre-investimento semântico (perceptível, desde logo, nos nomes que recebem), têm dificuldade em se autonomizar, dada a tendência para o nivelamento discursivo. O mais interessante do texto (e também aquilo que poderá constituir um obstáculo à leitura) é o modo como ele se desenvolve num português que, de facto, não existe. Não existe enquanto norma ou registo linguístico, e não existe enquanto uso actual ou pretérito. A sensação implícita de absurdo que daqui resulta é agudizada pelo discurso directo — as personagens constroem-se num registo que a si mesmo se satiriza.
Parte da espessura linguística e narrativa de todo o romance é produzida através da estrita acumulação de banalidades, de trocadilhos e jogos de palavras, e do encadear de frases feitas que, de tão retoricamente empoladas, já não significam sequer aquilo que o uso corrente lhes reconhece. Transversal a todo este trabalho de produção do sem sentido está um intenso e simultâneo trabalho de produção e de subversão da significação. O romance desconstrói as estruturas de significação, inscrevendo-se voluntariamente nelas. É possível que nem sempre esta ambiguidade esteja bem resolvida, oscilando o texto entre o jogo auto-irónico da desconstrução e uma implícita vontade de sobre-significação. Este desejo de significação atravessa o texto como a sua espinha dorsal, desde os nomes das personagens, até à multiplicação de referências culturais, políticas, religiosas, e outras. Será isto talvez aquilo que o texto tem de menos conseguido.
É notável a espessura e o fôlego do projecto, para mais se tivermos em conta o romance anterior. É notável a especificidade do registo linguístico. É notável a determinação com que o imaginário adoptado se desenvolve ao longo do texto. E, no entanto, este é um livro agressivamente fechado sobre si mesmo. Se a intransigência face a quaisquer exigências de comunicabilidade imediata permite a radicalização dos propósitos literários, pode também condenar o texto a um fechamento homorreferencial. A multiplicação de derivas semânticas arrisca-se a comprometer a própria escrita, ameaçando reduzir o romance a um brilhante e prolongado exercício de estilo.



1. Leonel Brim, Os Pés do Cordeiro, Editorial Bizâncio, 2010, (527 p.).
2. Idem, 315.