terça-feira, 14 de setembro de 2010

Nuno Júdice, ABC da Crítica - I



Neste pequeno ensaio, ABC da Crítica 1, Nuno Júdice revela uma lucidez que permite pensar ao mesmo tempo uma ideia de crítica e de literatura. Tem desde logo o mérito de arriscar produzir pensamento onde muitas vezes ele rareia: na análise teórica e crítica dos pressupostos da crítica literária. Fá-lo de forma empenhada, na defesa de uma concepção de crítica que poderíamos caracterizar como comprometida apenas com a própria literatura.
A opção por uma linguagem não excessivamente técnica permitirá a legibilidade do texto a um público mais alargado, apesar de tal opção conduzir frequentemente a uma manifesta falta de aprofundamento de algumas questões. Independentemente das teses que defende (e que serão abaixo objecto de questionamento e contra-argumentação), é possível pensar que algumas debilidades do livro decorrem da opção do registo de escrita: nem assumidamente técnico, nem propriamente de divulgação. Esta indefinição acaba por condicionar o desenvolvimento conceptual, ficando por vezes a meio caminho da argumentação. Embora a este ensaio não falte assertividade, por vezes perde-se em afirmações genéricas que não identificam com clareza o seu objecto. É, no entanto, um texto meritório; um texto que tem a virtude de levantar questões, mesmo que sejam questionáveis muitas das respostas propostas.
Não se fará aqui uma ficha de leitura do livro, nem exactamente uma recensão crítica. Dada a natureza do texto, optar-se-á por proceder à análise e contra-argumentação de algumas das teses avançadas. Não é objectivo contrapor uma “verdade” a outra, mas apenas problematizar e propor outra perspectiva sobre algumas das questões abordadas.

Nuno Júdice começa por se interrogar acerca função da crítica. Como função primeira, caberia à crítica iluminar a leitura do texto, tentando responder às questões:

«por que é que esta obra suscita o prazer da leitura? Ou: por que é que a obra afasta o leitor?» 2

Como ponto de partida, esta é uma atribuição no mínimo problemática: em crítica, nada ou muito pouco tem a ver com o prazer de ler, tal como na escrita nada ou muito pouco tem a ver com o prazer de escrever. Em ambos os casos, o prazer não é nem critério, nem referência primeira. O prazer de leitura poderá ser muito superior diante de textos literariamente muito pobres, dependendo o grau de prazer apenas da exigência do leitor, resultado da interacção entre a sua formação e a sua sensibilidade. Do mesmo modo, o prazer ou o desprazer do acto de escrita nunca é (nem para o autor) critério de qualidade do texto produzido.
Curiosamente, colocar a acção da crítica como interrogação desta dimensão do prazer conduziria a análise para o plano da experiência subjectiva — o que Nuno Júdice explicitamente recusa. Optando por uma recepção crítica de cariz semântico (a função do crítico consistiria em trazer para o plano da compreensão e da consciência aquilo que no texto se situa ou se manifesta em outros planos), Nuno Júdice denuncia o subjectivismo inerente a uma análise qualitativa dos textos:

«Não estou a falar aqui de apreciações de ordem qualitativa. O crítico pode dispensar-se de entrar nesse domínio, em que o gosto intervém como uma muleta para a sua incapacidade de ser objectivo.» 3

Colocar a análise qualitativa no plano do estrito gosto do crítico (e por isso alheia à suposta objectividade) é escamotear que isso que, na leitura crítica, se reporta por qualidade de um texto, ou de qualquer representação em geral, não decorre exactamente do juízo de gosto, mas da identificação de modalidades do uso da linguagem em causa. Em todos os casos, a avaliação qualitativa de uma representação de cariz artístico deve responder pela capacidade que essa representação tem de alargar ou diminuir as potencialidades da linguagem em que se produz. Naturalmente que aqui age sempre um conjunto de critérios que decorrem directamente da experiência particular do crítico relativamente ao uso dessa linguagem (por exemplo, a sua opção por uma dada corrente ou modelo literário), mas tal não corresponde sem mais ao juízo de gosto.
Não será a constatação do relativismo histórico inerente a estes critérios que permite ignorar o seu carácter fundador: cada cultura e cada época desenvolvem modelos de manipulação de uma linguagem (a literatura, no caso), permitindo, face a eles, produzir novas representações e aferir as produções que melhor optimizam as potencialidades abertas por esse uso da linguagem. Estes critérios não são subjectivos, sendo de forma aberta e diferenciada partilhados por toda uma comunidade. Na composição desta comunidade, entram sujeitos com distintas competências na manipulação dessa linguagem, quer no plano da produção, quer no plano da recepção. Mas esta diferenciação de competências não corresponde a um índice de subjectividade — embora tenha repercussões ao nível da experiência subjectiva, tal diferenciação corresponde sobretudo à especialização de competências inerente à experiência cultural. À especialização implicada na escrita (um escritor será um agente especializado no uso de competências que são largamente partilhadas: a escrita), correspondem diferentes graus de especialização na recepção do texto.
Se idealmente se pede ao autor que desenvolva capacidades de excepção na manipulação da linguagem em que se inscreve a sua produção, ao crítico, pede-se uma capacidade acrescida de recepção — isto implicará a percepção especializada do modo como na representação proposta se organizam as diferentes variáveis de linguagem. Enquanto leitor especializado, deve pedir-se ao crítico que produza o desfasamento conceptual necessário à percepção efectivamente crítica da obra, e tal corresponderá necessariamente a confrontar a obra com coordenadas de recepção distintas daquelas que orientaram a produção do texto. Neste sentido, a crítica deverá sempre constituir-se como produção de alteridade. Por isso, será importante olhar com reserva para a implícita subordinação da crítica ao texto, inerente à proposta de Nuno Júdice — segundo este, ao crítico cabe a função de responder às questões que a obra colocada:

«O lugar do crítico é o lugar do leitor: e, aí, tentar encontrar as questões que o texto coloca a quem o lê, procurando dar-lhes uma resposta, já que simples leitura não tem esse fim. Se ao ler uma crítica, o leitor tiver encontrado ao menos uma resposta às interrogações que a obra coloca, o objectivo da crítica pode dar-se por satisfeito.»4

Responder a uma pergunta é sempre colocarmo-nos nos parâmetros conceptuais e comportamentais definidos pela própria pergunta. Ora, entender a crítica como lugar de resposta a uma pergunta formulada na obra seria colocá-la no plano por esta definido, privando-a implicitamente da independência necessária à produção da diferença. A leitura é sempre um exercício do cruzamento de diferenças: são sempre outros os olhares que lêem, e muito do valor de um texto pode ser aferido pela sua capacidade de suportar o exercício violento da diferença. É este exercício de confronto que é exigível à recepção crítica.





1. Nuno Júdice, ABC da Crítica, D. Quixote, 2010, (111 p.).
2. Idem, 13.
3. Idem, 15.
4. Idem, 18.