sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Nuno Júdice, ABC da Crítica - II


 

A única coisa que podemos verdadeiramente pedir à crítica de arte é que ela se assuma como crítica; como exercício de liberdade, enquanto capacidade discursiva de análise e compreensão de uma realidade particular a que chamamos arte, nas várias linguagens em que se produz. Isto implica a assumir a possibilidade de que a crítica seja um lugar de produção de desconforto, de destabilização; implica recusar a postura de reverência diante das “grandes obras, das “obras em si”, de uma qualquer uma totalidade não contaminada pela decadência do olhar formado por outras linguagens. É na ameaça implícita desta postura reverente que o ensaio ABC da Crítica 1, de Nuno Júdice, incorre.

Apesar da proliferação de referências críticas e literárias, nota-se a quase ausência de autores vivos, sejam escritores ou críticos. Esta opção pelo não confronto e pela não objectivação corresponde a uma opção pelo conforto da tese face à possibilidade do contraditório. Poderá também, o que é legítimo, corresponder à opção pelas ideias, em detrimento dos autores. Esta recusa de redução das obras à vida factual dos autores é uma tese central deste ensaio.
Mas curiosamente, e não obstante tal recusa de redução dos textos à vida do autor (o que de tão óbvio já não se faz verdadeiramente problema), o ensaio acaba por incorrer num erro mais grave: a suposição da existência da “obra”; a suposição da possibilidade de tomar o todo da produção de um dado autor como referência primeira na recepção crítica. Isto corresponde a uma inaceitável restrição dos operadores de recepção, a um inaceitável encerramento homorreferencial do texto e do autor sobre si mesmos:

«(...) cada livro de um autor literário deve ser respeitado como tal, e examinado dentro de um percurso ou do contexto global da obra em construção. É evidente que um livro poderá ser considerado «menor» no cotejo outros do mesmo autor (…), mas para lá do facto sempre subjectivo do assumir do juízo (des)valorativo, a leitura crítica de um livro específico, de um autor que já tenha atrás de si uma obra, não poderá ignorar o sistema de que faz parte, e em todo o caso aquilo que acrescenta ou retira ao processo dessa obra global.»2

Está aqui explícita uma muito questionável noção da obra do autor como totalidade orgânica que deve remeter para si mesma em circuito fechado. Olhar um texto exclusiva ou preferencialmente à luz dos outros textos desse autor é incorrer no encerramento do autor sobre os seus próprios pressupostos. O exercício de uma leitura exigente é exactamente o oposto: um processo consciente ou intuitivo de abertura e de confronto. A única totalidade que deve ser referência para a recepção crítica é a do todo (múltiplo e diverso) das realizações actuais e passadas acessíveis nessa linguagem. É a referência ou não a esta “totalidade” que marca a diferença entre uma recepção exigente e uma recepção pouco exigente. Isto inclui admitir a natureza comparada de todas as formas de recepção artística, esteja ou não o receptor consciente dessa comparação. Mas é isto que, precisamente, este ensaio recusa:

«Isto implica que não posso, como crítico, ler um texto em função de outro texto. Se estou perante uma obra literária, ela impõe-se pelo seu mundo e pela sua linguagem próprias, não admitindo comparações, no plano da análise individual, que introduzam elementos heterogéneos no que é, sempre, um mundo próprio (a não ser que entre no domínio da Literatura Comparada, que é outra disciplina com modelos específicos de análise, em que a comparação é um dos eixos).» 3

Percepcionar uma representação (e em arte de um modo acrescido) é sempre percepcioná-la através da memória mais ou menos enriquecida de outras representações análogas. É a presença e a mediação das outras formas de manipular a língua para produzir literatura que permitem a formação de critérios de recepção. Estes são sempre instrumentos de comparação, mesmo que pareça não existir nenhum termo de comparação imediato. Não estamos diante de uma tese nova, ela é defendida, nomeadamente, por T. S. Eliot, no texto Tradition and the Individual Talent, (de que, aliás, Nuno Júdice cita outro trecho):

«Nenhum poeta, nenhum artista de qualquer forma de arte, possui só por si um completo sentido. A sua significação e o seu valor são função da sua relação com os poetas e artistas mortos. Não é possível avaliá-lo só por si; é necessário colocá-lo, para comparação e contraste, por entre os mortos. Entendo isto como um princípio a que deve obedecer tanto a historiografia como a crítica de arte.» 4

A recepção crítica corresponde sempre a este exercício de comparação e contraste, não apenas entre os vivos e os mortos, mas também entre os vivos e os vivos, e, mais, entre os vivos, os mortos, e o possível de cada linguagem, na medida em que este seja susceptível de ser tomado como referência crítica. Parte da perspicácia e da exigência da crítica funda-se nisto: na sua capacidade para, em cada momento e em cada contexto, ser capaz de percepcionar uma representação à luz das possibilidades nesse contexto abertas a essa linguagem. Neste sentido, a recepção crítica deve funcionar de um modo análogo a um teste de resistência dos materiais, a uma prova de esforço que permita aferir a capacidade de resposta das obras. E tal corresponde inevitavelmente a um exercício de comparação e confronto.
Para além do mérito de enunciar de forma clara um conjunto de problemas, este ensaio revela-se muito questionável nas respostas que propõe. A noção de crítica que dele resulta é a de uma crítica acrítica, ao serviço do autor (quando não subserviente), e não parte de uma realidade cultural e artística complexa que se constrói através da interacção da diversidade de vozes. Estamos diante de uma postura estranhamente conservadora (quando não reaccionária) que acaba por se comprometer a si mesma.

 




1. Nuno Júdice, ABC da Crítica, D. Quixote, 2010, (111 p.).
2. Idem, 68-69.
3. Idem, 59-60.
4. T. S. Eliot, «Tradition and the Individual Talent», in Selected Essays, Faber and Faber, 1953, 15.