quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

a aura



 

      «Definimos esta última (a aura) como manifestação única de uma lonjura, por muito próxima que esteja. Numa tarde de verão descansando, seguir uma cordilheira no horizonte, ou um ramo que lança a sombra sobre aquele que descansa - é isso a aura destes montes, a respiração deste ramo.» 1


      o peso ou a espessura das palavras e das imagens choca com o peso ou a espessura daquilo a que chamamos mundo. escrever ou produzir uma imagem é transpor para a ordem da representação aquilo que talvez não estivesse na ordem do mundo. esta ideia de representação é central nas práticas criativas. tudo o que se disser a propósito da escrita, da música ou de qualquer linguagem artística, decorre do modo como esta a relação é entendida.
      o que é que a palavra ou a imagem dizem na sua relação com o mundo? o que é que do mundo cabe na palavra ou na imagem? o que é que no mundo é irredutível à imagem ou à palavra? o que é que na palavra ou na imagem ultrapassa o mundo como possibilidade? nenhuma destas questões é susceptível de uma resposta que não implique os pressupostos de que partiu.
      tal como é proposta por Walter Benjamin, e para além de questionáveis derivas nostálgicas, a categoria de aura surge como uma proposta de reconfiguração da ideia de representação. está em causa a possibilidade de uma experiência que, sendo objecto de representação, ultrapassa a própria capacidade de a representar. na sua mais sugestiva interpretação, esta categoria aproxima-se da ideia de sublime tal como foi modelada pelo pensamento iluminista.
      se a representação envolve como parte integrante algo que não é susceptível de representação, então as palavras ou as imagens estão atravessadas pela não coincidência entre a sua realidade enquanto representação e a realidade do seu referente. em toda a relação de representação permanece um resto, um pólo interior de resistência à apropriação, alguma coisa que, sendo condição de representação, não é representável.
      alguma coisa que, na sua opacidade, se constitui como resistência, faz dizer (ou ver, ou ouvir) na estrita proporção em que não se diz (nem se vê, nem se ouve).




 


1. Walter Benjamin, «A Obra de Arte na Era da sua Reprodutibilidade Técnica», in Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, trad, M. Luz Moita, Relógio D’Água, Lisboa, 1992, p. p. 81.