domingo, 20 de fevereiro de 2011

o como



 
há alguma coisa na atenção dedicada a uma representação que visa não a sua finalidade semântica ou instrumental, mas o meio que a constrói. que visa não o seu sentido, mas os instrumentos convocados para a sua construção. é essa a relação inerente àquilo a que chamamos arte.
o que quer que a palavra diga, di-lo, enquanto literatura, no interior de um permanente processo de reenvio para si mesma. este é um movimento de resistência ao sentido que não age pela produção de enigmas semânticos, mas simplesmente pela recondução da representação ao estrito plano da sua configuração formal, ou seja, a uma dimensão não imediatamente semântica — quaisquer que sejam os modelos dessa configuração.
nesta acepção, o sentido de um texto equivale ao sentido de um corpo: de facto, é a sua superfície, a sua pele, que define o plano predominante da sua apreensão. ao nível da arte, a pele de um texto ou de uma imagem corresponde ao modo de cada representação se configurar no interior das convenções formais de cada contexto.
é este como (o como se diz, independentemente daquilo que se tenha ou não tenha para a dizer, o como se representa, independentemente daquilo que haja ou não haja para representar) que define um trabalho enquanto arte. e é a este como que estão indexados os critérios de recepção, sejam eles mais ou menos especializados.
é o como que, em cada texto, potencia o porquê. e é, eventualmente, a única coisa que realmente importa. o resto é uma decorrência.