domingo, 13 de março de 2011

Gabriele D’Annunzio, A Volúpia






«Parecia-lhe trazer em si o último sopro das recordações já mortas, o último rasto das alegrias já desaparecidas, o último sentimento da felicidade já acabada, algo semelhante a um vapor duvidoso de que emergissem imagens sem nome, sem contorno, interrompidas. Ela não sabia se era um prazer ou uma dor; mas a pouco e pouco aquela agitação misteriosa, aquela inquietação indefinível, aumentava e enchia-lhe o coração de doçura e de mágoa. Os pressentimentos obscuros, os turbamentos ocultos, as saudades secretas, os receios supersticiosos, as aspirações combativas, as dores sufocadas, os sonhos atormentados, os desejos não satisfeitos, todos esses turvos elementos que compunham a sua vida interior agitavam-se agora e embraveciam.» 1





a sobrecarga semântica deste texto corresponde à sobrecarga afectiva e sensorial que o livro produz: uma sensualidade veemente que quase esgota a construção do afecto. não há aqui amor que não tenha uma relação sensual como horizonte de realização. é um livro notável, que constrói a imagem de um final de século XIX que se encena a si mesmo sob o fausto da herança renascentista.
à época da publicação, o livro Il Piacere (escrito em 1888, publicado no ano seguinte) deu lugar um verdadeiro culto do autor. diante do texto, compreendem-se os motivos. apesar de nas últimas largas décadas ter sido estranhamente ignorado em Portugal, Gabriele D’Annunzio é um escritor maior. neste esquecimento pesarão tanto preconceitos  de ordem literária como de ordem ideológica. a vários títulos, é um autor ideologicamente reaccionário, mas com uma extraordinária capacidade de auto-encenação e com o qual é fácil ficar fascinado. a coberto de alguns ismos enganadores (esteticismo, decadentismo, etc.), Il Piacere é um livro estranhamente anti-moderno, ideologicamente muito questionável, mas que, à distância de mais de um século, nos oferece uma deslumbrante janela sobre um mundo que nunca existiu.

não obstante a postura decadentista, permanece no livro a ideia de absoluto como referente último. a encenação do sentimento e da arte como lugares de realização do mundo e do homem conduzem-nos a um romantismo que perdeu a confiança em qualquer ideal, para se confrontar com o prazer do corpo como limite último. é um nietszcheanismo corrompido pelo excesso de sensualidade, com uma profundidade psicológica que só raramente se encontra. parte daquilo que Proust produzirá duas décadas mais tarde, encontra-se aqui numa versão implusiva, através de uma linguagem ao mesmo tempo rigorosa e de uma quase ingénua liberdade de construção. a liberdade inerente à volúpia da linguagem. mesmo que para tal seja necessário fechar os olhos para ver melhor.



(a tradução de Graziella Saviotti Molinari é excelente. a edição da Editorial Gleba é dos anos 40 do século XX. talvez disponível em algum alfarrabista.)





1. Gabriele D’Annunzio, A Volúpia (Il Piacere), Trad. Graziella Saviotti Molinari, Editorial Gleba, Lisboa, s/d, p. 25-26.