sexta-feira, 18 de março de 2011

o sublime — I



 
« A Segunda Elegia

 
Todo o Anjo é terrível. E contudo —ai de mim!—
eu vos invoco com meu canto, aves quase mortais da alma,
por saber quem vós sois. Que é feito dos dias de Tobias,
em queu um dos mais radiantes surgiu à porta simples da casa,
um tanto disfarçado para a viagem e já não terrífico;
(jovem para o jovem, ao olhar curioso lá para fora):
se o Arcanjo agora, o perigoso, de detrás das estrela
se aproximasse descendo um só passo: com seu violento
bater nos abatia o próprio coração. Quem sois vós?
Obras felizes das primeiras horas, filhos amimados da Criação,
cadeias de montes, cumes aurororais
de tudo o que foi criado, — pólen da divindade em flor,
articulações da luz, escudos de delícia, tumultos
de tempestuoso sentimento extático e de repente, isolados,
espelhos que a própria beleza, derramada a jorros,
de novo recolhem na própria face.
(…)» 1

 
a impossibilidade de sentir a totalidade daquilo que é anunciado como objecto de experiência é a experiência de um limite que se projecta para além das linhas que define. podemos pensar este paradoxo com a categoria de sublime.
neste texto de Rilke, o sublime não está no tema, no vocabulário ou no imaginário, ou não está apenas, nem sobretudo, neles. está na tentativa de, através da linguagem, dizer o que se enuncia como inapreensível. o terrível, aquilo que pela sua dimensão é incomensurável com a percepção humana, surge aqui como indício de algo que na linguagem é da ordem do indizível.
mas a percepção deste limite da língua e da experiência não conduz ao silêncio, antes à afirmação tacteante das próprias palavras: « E contudo —ai de mim!— / eu vos invoco com meu canto, aves quase mortais da alma / por saber quem vós sois.». a consciência de alguma coisa que mal cabe na língua e na consciência propicia um aprofundamento da experiência da língua, ao mesmo tempo que uma aproximação pela palavra daquilo que se sabe não caber na palavra. a solução será dizer não o objecto, mas os análogos, dizer não o anjo, mas aquelas experiências que, transponíveis para a língua, se aproximam em esplendor do que só por analogia cabe no texto.

aquilo que Rilke aqui realiza é uma forma de representação que confronta a linguagem com os seus próprios limites: dizer o indizível não é dizer um sentido extra-linguístico que se escondesse para lá das fronteiras da língua ou da experiência. dizer o indizível é produzir como experiência aquilo que só como experiência se realiza. neste sentido, o sublime é sempre um sublime linguístico. qualquer que seja a língua.




1. Rainer Maria Rilke, As Elegias de Duino, Segunda Elegia, in Poemas, As Elegias de Duino e Sonetos a Orfeu, trad. Paulo Quintela, O Oiro do Dia, Porto, 1983, p. 196-197.