domingo, 20 de março de 2011

o sublime — II


«Rochedos audazes e proeminentes, por assim dizer ameaçadores, nuvens de trovões acumulando-se no céu, avançando com relâmpagos e estampidos, vulcões na sua inteira força destruidora, furacões deixando para trás devastação, o ilimitado oceano revolto, uma alta queda de água de um rio poderoso, etc., tornam a nossa capacidade de resistência de uma pequenez insignificante em comparação com o seu poder. Mas o seu espectáculo só se torna tanto mais atraente, quanto mais terrível ele é, contanto que, somente, nos encontremos em segurança; e de bom grado denominamos estes objectos de sublimes, porque eles elevam as forças da alma sobre a sua medida média e permitem descobrir em nós uma faculdade de resistência de espécie totalmente diversa, a qual encoraja a medir-nos com a aparente omnipotência da natureza.» 1

na análise de Kant, o sublime resulta da encenação do confronto entre o homem e a natureza, entre o limite da percepção e o ilimitado das forças naturais. mas este dispositivo cénico não é em si mesmo sublime, é apenas ocasião para a duplicação reflexiva por parte do ser humano desse confronto. trata-se do que se poderia designar como uma trigonometria da incomensurabilidade: a encenação do drama do confronto entre o homem e a natureza abre o espaço necessário a um movimento reflexivo que mede a distância entre a natureza e a percepção do sujeito, ao mesmo tempo que a duplica pela consciência reflexiva dessa distância.
há alguma tendência em pensar o sublime como um uso superlativo do belo. esta é uma acepção redutora. em Kant, e numa análise fundadora da estética dos últimos dois séculos, o sentimento do belo assenta sobre uma relação harmoniosa das faculdades do sujeito —, é uma relação de equilíbrio. ao contrário, o sentimento do sublime diz respeito a uma experiência que desregula a harmonia do sujeito: diante de uma tempestade ou dos abismos de uma montanha, o homem sente simultaneamente o fascínio e a repulsa — o sublime é esta experiência de algo que ao mesmo tempo atrai e repele. é um prazer negativo, a experiência do que ultrapassa as faculdades do próprio sujeito para o experienciar; a experiência de algo que nunca é apreensível na sua totalidade; a experiência de um excesso que simultaneamente atrai e repele. a experiência do inexperienciável:

«Se, porém, denominamos algo não somente grande, mas simplesmente, absolutamente e em todos os sentidos (acima de toda a comparação) grande, isto é, sublime, então compreende-se imediatamente que não permitimos procurar para isso mesmo nenhum padrão de medida que lhe seja adequado fora dele, mas simplesmente a si mesma. Daí se segue portanto que o sublime não deve ser procurado nas coisas da natureza, mas unicamente nas nossas ideias.(...) Por conseguinte, o que deve denominar-se sublime não é o objecto, mas sim a disposição de espírito através de uma certa representação que ocupa a faculdade de juízo reflexiva.» 2

mas o sublime é aqui algo que é diz apenas respeito à experiência subjectiva: não são as tempestades ou as montanhas que são sublimes; em si mesmas, tais realidades são neutras. é o ser humano que diante de tais realidades experiencia o sentimento de uma inadequação entre si mesmo e a realidade. é isto o sublime: a consciência da inadequação entre a realidade e a representação. esta consciência é uma construção cultural. só ao homem, culto seria dado experienciar algo como sublime; pois, só o homem culto seria capaz o exercício racional que permite pensar como causa de prazer aquilo que parece não ser senão causa de medo ou de terror:

«Na verdade, aquilo que nós, preparados pela cultura, chamamos sublime, sem desenvolvimento de ideias morais, apresentar-se-á ao homem inculto simplesmente de um modo terrificante. Ele verá, nas demonstrações de violência da natureza em sua destruição e na grande medida do poder desta, contra o qual o seu é anulado, puro sofrimento, perigo e privação (...).» 3

o sublime não seria, então, uma estrita experiência do medo ou do terror, mas uma experiência face à qual o ser humano conserva um distanciamento protector. é uma proximidade que é distância ou uma distância que é proximidade. trata-se de uma experiência daquilo que ultrapassa as faculdades do sujeito, mas sem que este deixe de estar na posse lúcida dessas faculdades.
o sublime nomeia aqui alguma coisa que é do estrito domínio da consciência; consciência da radical inadequação entre o objecto da experiência e as categorias do sujeito — a consciência da impossibilidade da mediação entre o sujeito e aquilo que é experienciado; a consciência do carácter radicalmente outro dessa realidade: é a dor da impossibilidade da mediação e, simultaneamente, o prazer reflexivamente ditado pela consciência dessa impossibilidade.


1. KANT, E., Crítica da Faculdade do Juízo, trad. António Marques, e Valério Rohden, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1998, ¶ 28, p. 158.
2. Idem, ¶ 27, p. 144.
3 Idem, ¶ 29, p. 162.