domingo, 10 de abril de 2011

as rosas - I




« Um Jarro de Rosas

“A primavera”, diz o teu poeta alexandrino,
É o tempo do perdão das rosas”.

Agora, neste velho café esfarrapado
Junto ao quebra mar, onde tantos como nós
Sentiram o vingativo poder da vida,
Estão as rosas armadilhadas em jarras azuis de zinco.
Penso em ti, algures no meio delas —
Outras rosas — gastas pela nossa literatura (…)» 1

as rosas são uma criação humana. aquilo a que chamamos civilização é o espaço de construção das coisas como experiência simbólica. tal como os mais elaborados produtos da civilização, as rosas que hoje povoam os jardins são, na sua quase totalidade, o resultado de um longo processo de criação cultural. algumas delas ostentam no nome o apelido do seu criador, Noisette, Desprez, Van Fleet. nunca excluindo o acaso, a criação de rosas é um trabalho sistemático. por tentativa e erro, gerações de hibridizadores procederam à selecção e cruzamento das variedades, produzindo a complexidade e a diversidade formal das rosas antigas e modernas. é um processo cumulativo, em que, na preservação, no esquecimento ou na transfiguração, cada geração trabalha sobre os legados da gerações anteriores.
este movimento é análogo ao que encontramos em outros campos da cultura. a partir de uma herança comum — a língua, por exemplo —, e a partir de um conjunto de possibilidades de reorganização sintáctica e semântica dessa herança, abre-se o espaço de produção da diferença, de inscrição da divergência no território de uma pertença e de uma partilha.




1. Lawrence Durrel, «Um Jarro de Rosas»,  Alexandria, trad. Luís Nogueira, Fenda Edições, 1982, p. 9.