quarta-feira, 13 de abril de 2011

as rosas - II



«Penso em ti, algures no meio delas —
Outras rosas — gastas pela nossa literatura (…)» 1


as rosas gastas pela literatura são exactamente as mesmas que são construídas pela literatura. no movimento de atribuir uma função simbólica ao mundo, é difícil saber onde começa a arbitrariedade de uma opção casual, e onde é que aquilo que cada cultura aprende a valorizar corresponde a um reconhecimento de propriedades do objecto. mas qualquer que seja o ponto de partida, é a construção da representação que funda a coisa como experiência humana.
no meio-termo entre a experiência da natureza e a experiência da cultura, a valorização simbólica das flores corresponde à incorporação do mundo vegetal pelo mundo da cultura. elas mesmas são, muitas vezes, o resultado da manipulação cultural, deliberada e repetida. mas tal não significa que possamos reduzir a sua existência ao estrito plano da construção cultural. há sempre algo que está aquém ou além do investimento simbólico, algo que não se esgota na representação, algo que decorre sobretudo da experiência da coisa: forma, cor, peso, textura, consistência, aroma — dimensões que não cabem no texto a não ser pela sua redução a um encadeado discursivo que obedece mais à sua própria congruência interna (uma outra dimensão da forma, do peso, da textura), do que a uma tentativa de remissão para a coisa. tanto quanto de uma tentativa de apreensão, trata-se da produção de um discurso paralelo e desfasado.
a literatura é sempre da ordem deste discurso paralelo: não corresponde a transportar o mundo para as palavras, mas a acrescentar palavras ao mundo, multiplicando os mundos, ou as versões do mundo.
é este o trabalho realizado por Lawrence Durrel no Quarteto de Alexandria, de cujo universo narrativo este poema é devedor: os mesmos acontecimentos são repetidamente refeitos e recontados ao longo dos quatro volumes, num processo que não é o da revelação de uma qualquer “verdade, mas o da multiplicação de versões mutuamente incompatíveis, segundo uma prolongada aprendizagem da desilusão e da desconfiança.

não há valorização que não tenha como correspondente a possibilidade de uma desvalorização, não há nenhum investimento simbólico que não traga consigo uma reacção iconoclasta, expressa ou implícita. as rosas, como a morte ou como o amor, estão demasiado expostas para que não sejam elas mesmas atingidas pela reserva de quem aprendeu que a arte é sobretudo um exercício de desconfiança.




1. Lawrence Durrel, Alexandria, trad. Luís Nogueira, Fenda Edições, 1982, p. 9.