quinta-feira, 28 de abril de 2011

os cavalos



« Cavalgaram todo o dia, subindo através dos montes baixos e penetraram nas montanhas e ao longo da meseta, a norte, muito para além das terras por onde as manadas de cavalos vagueavam, e mergulharam na região que primeiro tinham atravessado cerca de quatro meses antes. (…) » 1



se há alguns modelos de escritas que se definem a partir da observação do quotidiano, dos pequenos gestos e das expectativas comuns, há outros que mergulham por inteiro no interior da excepção narrativa. este é o caso de Cormac McCarthy.
em literatura, um tema nunca é suficiente para justificar a identidade a densidade de um texto. enquanto literatura, uma reflexão relativa aos destinos últimos da humanidade vale tanto quanto o mais anódino dos temas. aquilo que  funda um texto é a sua capacidade de perspectivar ou transfigurar a experiência a partir da modelação da linguagem verbal. é neste movimento de modelação que o texto potencia ou não a sua espessura semântica. tal não invalida que a força de alguns livros se afirme a partir da sua construção narrativa. é caso, e de forma excepcional, da maior parte dos livros de Cormac McCarthy.
Belos Cavalos (originalmente publicado em 1992, e primeiro volume da designada Trilogia da Fronteira) é um romance de aventuras, quase um western. narra o percurso de  John Grady, 16 anos, e Lacey Rawlin, 17 anos, que no final dos anos quarenta do século XX atravessam a cavalo a fronteira do texas, internando-se na paisagem árida do norte do méxico. encontram trabalho como domadores de cavalos em La Puríssima, fazenda de onze mil hectares. para lá das fronteiras e das vedações, a paisagem é o espaço da liberdade, da confiança e da determinação. é o espaço dos cavalos: a um tempo, dóceis e indomáveis, receosos e determinados. causa, motivo, pretexto, os cavalos são o ponto de cruzamento entre a natureza e a cultura. quase cultura, quase natureza, absolutamente inocentes.
este não é um romance de aprendizagem. aos dezasseis anos, já não há nada que John Grady não saiba, pelo menos daquilo que pretende saber. a sensibilidade, o amor, e a perda surgem com a mesma naturalidade com a violência irrompe. crua, cega, e injustificada.
não será o melhor livro de Cormac McCarthy, mas é talvez o mais amável, e é muito melhor do que quase tudo o que actualmente o mercado editorial português nos oferece. seria pena que, por entre o ruído de obras frequentemente mais do que dispensáveis, um romance como este passasse despercebido.


(esta é a segunda tradução portuguesa deste romance, a primeira, de Graça Margarido, surgiu na Teorema, em 1994, e foi o primeiro romance de Cormac McCarthy a ser publicado em portugal. independentemente de divergências e convergências de opções de tradução nas duas versões, de notar que o design da edição de 94, da responsabilidade de Vasco Lopes, assume sem ambiguidade a herança imagética do western. isto produz uma densidade formal e semântica ausente da edição padronizada e quase asséptica — apesar de rigorosa — da Relógio D’Água. )





1. Cormac McCarthy, Belos Cavalos, trad. Paulo Faria, Relógio D’Água, 2010, p. 149.