quarta-feira, 27 de julho de 2011

a caverna





«Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos "robertos" colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
 – Estou a ver – disse ele.
– Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objectos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
– Semelhantes a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projectadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
– Como não – respondeu ele –, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?
(…)
– De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objectos.
– É absolutamente forçoso – disse ele.
– Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objectos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objectos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objectos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
– Muito mais – afirmou.
– Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objectos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
– Seria assim – disse ele.
– E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objectos?» 1




a nossa ignorância é tão mutável quanto aquilo a que chamamos conhecimento. a extensão daquilo que reconhecemos como verdadeiro ou belo modela de forma directa aquilo que recusamos enquanto falso ou feio.
como imagem da verdade, da beleza e da justiça, a metáfora da luz ocupa um lugar central no pensamento do ocidente. o penoso caminho do prisioneiro em direcção à luz marca o percurso da descoberta e do confronto com aquilo que ultrapassa o antecipável. marca também a ideia de que qualquer aprendizagem é talvez um inevitável exercício de violência:
«E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol ».
 o confronto com aquilo que ultrapassa a nossa identidade e o modo como a cada momento representamos o mundo como coisa reconhecível implica sempre uma agressão contra isso a chamamos identidade. a identidade individual, e a identidade colectiva. nós, homens, ao mesmo tempo presos aos limites da singularidade e à pertença a um povo de cativos:
«– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
– Semelhantes a nós – continuei -.»
mas a promessa de liberdade ameaça, de facto, prolongar o cativeiro. o conhecimento, aprendemos muito depois de Platão, pode constituir-se como instrumento de repressão. veja-se como a ideia do sol enquanto imagem sensível da verdade e da beleza (uma verdade e uma beleza, diz-nos Platão, que não seriam de ordem sensível), oblitera a possibilidade de que exista não apenas uma multiplicidade de apropriações e representações, mas que ele mesmo, o sol, se multiplique em realidades plurais o suficiente para que não possam ser reduzidas a uma qualquer unicidade.
mas este foi talvez um percurso necessário. precisámos de aprender a unicidade da verdade e da beleza para descobrir a sua pluralidade. precisámos de aprender a preponderância da razão como lugar de luz para descobrir ou reaprender a profundidade da sombra. a luz, como nos mostra Albert Camus em O Estrangeiro, pode não ser lugar da lucidez da razão, mas ocasião de uma irracionalidade que se inscreve na consciência, contra a consciência ou apesar dela. e não menos real, nem, talvez, menos verdadeira.




1. Platão, República, Livro VII, 514a-517c, trad. Maria Helena Rocha Pereira, Fundação Calouste Gulbenkian.