sexta-feira, 19 de agosto de 2011

as laranjeiras




« Em louvor da laranja-da-china


Nesse pomo, em que a China nada ingrata
O tesouro nos deu mais estimado,
Descobre a vista com subtil cuidado
Ouro no fruto, o que na flor foi prata;

Em sua flor, da Aurora sempre grata,
Se emprega liberal o belo agrado,
E em seu fruto gentil Febo empenhado,
Ao passo que se goza, se retrata;

Ó árvore feliz, não tronco bruto,
A quem a Aurora estima, o Sol adora,
Dura e vive, apesar do tempo astuto;

Pois em ti vemos, e em ti logra Flora,
Se o resplandor do Sol no áureo fruto,
Na profunda flor a luz da Aurora1



na longa e quase perdida tradição dos jardins portugueses sobressai como constante a introdução de plantas exóticas. a laranjeira azeda era uma presença central dos jardins de tradição islâmica, e algumas variedades de laranjeiras doces terão sido comuns na península ibérica e europa durante a idade média. mas é com a introdução pelos portugueses, no século XVI, da laranja doce directamente proveniente da ásia que a laranjeira se expande pelo sul da europa, povoando antes do mais os espaços ajardinados de paços e palácios meridionais. em algumas línguas do mediterrâneo, portugal e laranja são homónimos ou quase.
no renascimento e barroco portugueses, a laranjeira, por si, era central na humanização da paisagem, na construção cénica do espaço do jardim:

«O facto mais característico dos jardins portugueses do século XVIII, sistematicamente referido por todos os estrangeiros, era a forte presença de laranjeiras e limoeiros. Esta tradição que se manifesta no séc. XV como a génese do jardim português, entroncava por sua vez numa tradição islâmica de valorização do olfacto a par do sentido de usufruto visual 2

não é de natureza que estamos a falar, é de cultura e de civilização. é de contacto e de transporte, de apropriação e de manipulação. com a laranjeira, como com os jardins ou actividades produtivas como a agricultura, estamos diante de um consciente e laborioso movimento de modelação do mundo. num jardim, nada ou quase nada é natural. nem mesmo as plantas.
tal como não há uma linguagem natural —as línguas são construções quase absurdamente artificiais—, também não há na agricultura ou na jardinagem um uso natural das plantas. é dentro e através do artifício que aquilo a que chamamos cultura se constrói.

esta poesia de circunstância do barroco português é um bom exemplo da assunção criativa do artifício. o uso simultaneamente funcional (porque ao serviço de um tema) e retórico da língua produz, nos melhores exemplos, um trabalho de esgotamento das possibilidades de uma dada organização da língua em literatura, conduzindo à exigência de reinvenção das próprias convenções literárias. 
como quase sempre em literatura, aquilo que é dito é estrita função do enquadramento linguístico — estrita função do modo como é dito. este modo é fruto tanto daquilo que se herda como da capacidade de subverter criativamente a própria herança.
em si mesmas, e como tema literário, talvez hoje não nos interessem muito as laranjeiras, mas também é verdade que não nos interessa verdadeiramente muito daquilo que constitui objecto da maior parte da poesia, da literatura, e da arte contemporâneas.




1. André Nunes da Silva, Em louvor da laranja-da-china (1665), in Francisco Topa, Edição Crítica da Obra Poética de Gregório de Matos — Vol. II: Edição dos Sonetos; Anexo — Sonetos Excluídos, edição do autor, (Faculdade de Letras da Universidade do Porto), 1999, p. 193.

2. Helder Carita, e Homem Cardoso, Tratado da Grandeza dos Jardins em Portugal, Bertrand Editora, 1998, p. 202.