sábado, 27 de agosto de 2011

a pronúncia





é um condicionamento prévio, quase imperceptível àquele que fala. mais profundo do que a pertença à  língua materna, porque interior a ela, o modo como o idioma se modela num reflexo do lugar, do momento e do contexto de aprendizagem e uso parece sabotar o discurso. sabotar as próprias pretensões da língua a constituir-se como correlato ou instrumento de elucidação do mundo e da vontade. uma falha interior à língua, à vontade e à consciência.
aquilo que se diz, na palavra e no logos, está condicionado por algo que não é da ordem do lógico-verbal. marca de uma pertença que escapa à posse e define na oralidade alguma coisa que ultrapassa o texto. normalmente, só deturpando a norma ortográfica é que as variações regionais ou epocais da pronúncia são traduzíveis para a escrita. mas em si mesma a pronúncia não exige a subversão da norma, é compatível com ela. é um estranho traço de individuação: é recebida, é em parte manipulável, mas é-nos exterior. tem a mesma espessura do rosto que, quase independente da consciência que o habita, é a imagem que o outros têm de nós mesmos.