quarta-feira, 28 de setembro de 2011

a endogamia





em termos literais, as relações endogâmicas traduzem a opção por parceiros sexuais no interior de uma restrita comunidade de origem. numa acepção mais vasta, dizem respeito ao mecanismos de auto-reprodução e de fechamento sobre si mesmos de instituições ou comunidades, mecanismos que tendem a privilegiar os membros dessas comunidade em detrimento de elementos exteriores.
é de relações tendencialmente endogâmicas que se faz o pequeno mundo da literatura em portugal. de relações de cumplicidade e de dependências cruzadas entre os limitados poderes que constituem os mundo da escrita, da edição, da divulgação e da crítica. não é raro que um mesmo sujeito desempenhe, à vez ou em simultâneo, o papel de autor, de jornalista, de crítico, de editor, de júri em prémios literários. o acrescido sentimento de grupo e de pertença, garantido pelos respectivos pares posicionais, aprofunda a tendência para a endogamia.
o excesso de proximidade faz com que as relações pessoais se sobreponham ao potencial mérito literário. torna ainda cada actor mais susceptível a diferentes formas de pressão, seja esta susceptibilidade consciente ou uma simples decorrência do hábito. o hábito é, aliás, um dos elementos fundadores das comunidades endogâmicas. por hábito, algumas editoras e alguns autores têm sempre boa imprensa. outros têm sempre imprensa. outros nem uma coisa nem outra. sempre ou quase sempre com as excepções que confirmam a regra. não se tratará de favorecimento, mas de cumplicidade inter pares.    
quando a uma estrutura tendencialmente endogâmica se acrescenta a falta de escala, o estrito plano institucional deriva para o âmbito do familiar. numa comunidade pequena, onde todos conhecem todos, estabelecem-se relações mais ou menos próximas de consanguinidade literal ou figurada.
como não é possível que, de facto, “todos se conheçam”, os elementos estranhos são objecto de exclusão mais ou menos sumária, a não ser que sejam cooptados ou claramente reconhecidos por um dos membros reconhecidos da comunidade. todo o elemento exterior é potencialmente entendido como uma ameaça, ou no mínimo, como inapreensível às luz das dominantes categorias comuns. não é má vontade, trata-se simplesmente de constatar a sua não existência.




(a situação não é exclusiva do mundo literário português. o blogue Crítica poética y contracrítica, do colectivo Addison de Witt, procede a uma curiosa análise da objectividade e imparcialidade dos júris dos prémios de poesia em espanha. a percepção é a de que: "Em geral, os prémios de poesia em Espanha são exemplo de más práticas, compadrio e, nos piores casos, corrupção.")