sábado, 1 de outubro de 2011

João Silveira, DEVER/HAVER





« estás debaixo de terra
e dizem-te que é de noite.
não há luz.
não há sol.
é de noite, filha,
dizem-to como mo disseram a mim em criança.
esta noite, este túnel,
sempre me assombrou, Mariana
(a tua mãe disse-o agora, o teu nome).

é de noite, Mariana
e por isso não há sol,
não há luz,
só cimento e carris
e guinchos vindos do escuro.
acham-te curiosa por não saberes porque é noite.
eles também não sabem.
adeus é para os mortos, continuam,
sorrindo sem saber o que foi feiro do céu.

é tudo mentira.
não é de noite.
o sol não morre assim.
e um adeus muitas vezes a quem nos sobrevive. » 1


não é muito comum encontrar textos com a força expressiva deste poema. a omissão do contexto narrativo, a sobreposição de registos, uma quase contraditória secura dos enunciados, conjugam-se para produzir uma sensação de perturbação que o final do texto não dilui.
é uma poesia sensível a deste livro. sensível enquanto não rejeita o lirismo de que este poema é exemplo, e sensível porque assenta sobre um trabalho atento e cuidado da língua. é ainda sensível porque quase todos os textos implicam a presença física de um olhar que vê e de um corpo que sente. fome ou frio, o escuro ou o som de um uivo.
nos melhores textos, encontramos aqui uma força expressiva que é raro encontrar na poesia recente. e é raro sobretudo porque na maior parte dos autores ela vem acompanha por um imaginário e um vocabulário que não conseguem libertar-se das expectativas mais imediatas acerca daquilo que é a poesia. este é um traço que, aliás, caracteriza alguns dos textos menos conseguidos deste livro. há intensidade dramática, há cuidado e atenção à linguagem, há frequentemente uma muito boa capacidade de construir o ritmo dos textos, mas nesses o todo é afectado por um vocabulário que não se consegue desprender de um território semântico reconhecível.
entre as aproximadamente 60 páginas deste livro, há alguns textos de uma construção rítmica excepcional, como é, por exemplo, o caso de “multiplicando-se em coordenadas”2, que ficam afectados pela opção do campo semântico e do correspondente imaginário. é uma opção do autor que merece ser respeitada, mas teria havido ganhos em subverter este léxico demasiadamente reconhecível como poético. os traços surrealizantes de algum imaginário, uma marca certamente consciente desta escrita, correm o risco de fechar mais os textos sobre si mesmos do que o simples e aparentemente pobre reenvio para o imediato.
é precisamente quando, sem quebra da força rítmica e expressiva, o autor opta por um registo de maior secura que obtém melhores resultados:

«ficamos sentados.
eu fumo tu não e o café fecha às seis
a noite inteira aberto a putas e pedintes
e rapazes de camisa branca
ou andamos falamos
eu falo tu escutas não suspiras não bocejas
tu falas e eu oiço
e penso no quanto andámos até aqui
no quanto não percorremos ainda
e no quanto nos falta até que a vida acabe.» 3

os enunciados são quase lineares, próximos da estrita constatação. e o que funda o texto é exactamente aquilo que se opta por constatar: tanto o que a acontece como o que não acontece. é na articulação de afirmação e da negação que o texto se constrói: aquilo que fazemos mede-se por aquilo que não fazemos. que não fizemos, que nunca chegaremos a fazer.
ninguém conhece um livro melhor do que o seu autor. e, no entanto, os melhores textos prescindem dele. há neste livro muitos versos que não são explicados. não precisam de o ser. o eu que enuncia um texto, que se encena no texto, coincide sempre mais com a própria linguagem através da qual se enuncia do que com os sempre provisórios e contingentes traços psicológicos disso a que chamamos autor. mas isso significa que o seu tamanho coincide com o da linguagem na qual se constrói.

« (…)
 as palavras certas
não existem
e, se sim, mudas, pois só no silêncio —

não o digas:
(…) »

ora, a escrita é precisamente a capacidade de arrancar do silêncio as quase sempre provisórias palavras capazes de construir o mundo. e nisto não há outro mundo que não o das palavras.




1. João Silveira, DEVER/HAVER, Artefacto, 2011, p. 33-34.
2. p. 15.
3. p. 44.