quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Malcom Lowry, O Barco de Outubro para Gabriola






«O sol da manhã de Outubro encheu o veloz autocarro, o Galgo, que navegava por entre os ramos da floresta, cantando direito ao mar, roncando pelas montanhas, rodeado de súbitos precipícios.
Seguiam pela linha da costa. À esquerda ficava a floresta; à direita, o mar, o golfo.» 1


o autocarro que percorre a costa da Colúmbia Britânica encaminha Ethan, advogado precocemente retirado, e Jacqueline, sua mulher, em direcção ao barco que os conduzirá a Gabriola, a ilha onde esperam encontrar uma casa. a casa e um lugar que substituam aqueles que, através do fogo ou da expulsão, já por várias vezes perderam.
este é um livro póstumo, deixado incompleto e publicado pela sua mulher mais de uma década depois da morte do autor. se Debaixo do Vulcão é o romance da condenação, exterior ou auto-imposta, mas inexorável, O Barco de Outubro para Gabriola é o romance da redenção. da pequena possibilidade de redenção. mas esta é tanto o resultado de uma fuga consciente e assumida, como de uma última tentativa de agarrar a vida com ambas as mãos para fazer dela aquilo que se souber.
é um romance amável. não tem a densidade de Debaixo do Vulcão, mas prolonga-lhe o olhar: no discurso e na compreensão de que o espaço cénico nunca constitui apenas o cenário, é, antes, parte determinante da construção da narrativa. o lugar nunca é neutro, condiciona, determina, molda os gestos possíveis. aquilo que se é nunca é independente do lugar onde se está.
à medida que o autocarro avança em direcção ao barco que conduzirá Ethan e Jacqueline à ilha e à possibilidade de uma nova casa, somos conduzidos num percurso que atravessa as casas e o tempo perdidos. é um percurso pela provisória promessa de felicidade que uma casa e um lugar podem constituir: as únicas coisas, em si mesmas quase sinónimas do amor, que podem fundar o trabalho de redenção. e, apesar de tudo, a perda não é pretérita, é constituinte. transportam-na, um e outro, com eles mesmos no autocarro. e o barco que os aproxima da ilha é o mesmo que materializa a perda:

«Oh meu Deus, era este o momento, o momento que ele nunca esperara realmente que ocorresse. E, nos seus próprios termos, um momento de alegria. Contudo, era como se estivessem também, inimaginavelmente, finalmente, também a dizer adeus à cabana onde tinham morado, àquela antiga vida nova na praia, a Eridanus, e aos vizinhos que ali tinham tido, e então, por um momento, quase odiou Jacqueline por esta avidez e olhar de esperança.» 2


 


1. Malcom Lowry, O Barco de Outubro para Gabriola, trad. Maria José Figueiredo, Editorial Estampa, 1992, p. 13.
2. Idem, p. 333.