sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Nuno Dempster, Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo I





«Ama-me como Pedro amou Inês»,
disse ela, recordando a festa há pouco
e a peça adolescente em que fora Inês;
e abraçou-o, sorvendo-lhe as carótidas,
como se a alma pudesse ser sugada
no pescoço de Pedro juvenil.
Mas da Castro ele nada conhecia,
tão-pouco os nomes trágicos, quem eram,
como amavam, se Pedro a tinha dura
como ele a tinha agora, e se essa Inês
era virgem como esta outra, e ambos cegos
e com tamanha urgência. Que importava?
E foi ali mesmo que ela abriu as pernas
e lhe ofereceu o hímen num altar,
ali, no carro, atrás, sobre um jornal.» 1


o mundo e o olhar seculares que emergiram da modernidade permitiram, nas artes, tomar consciência do potencial criativo da acção profanadora. permitiram assumir a força criadora das atitudes iconoclastas. em diferentes linguagens, da literatura às artes plásticas ou à música, parte importante da herança artística do século XX não é compreensível sem o pressuposto do carácter construtivo do não, da natureza edificante da profanação.
mas isto não significou, de facto, a transformação das artes num território secularizado. o resultado de mais um século de posturas iconoclastas traduziu-se na instauração de uma nova ordem do sagrado. um sagrado profanizado, que assenta na escolha estética ou racional dos mitos em que acreditar. ou, o que é funcionalmente o mesmo, que assenta na escolha dos mitos a profanar.

nunca é inocente a escolha do altar. a venerar ou a profanar, o espaço simbólico mantém-se o mesmo. é no interior da ambiguidade entre a veneração e a profanação que este livro de Nuno Dempster se constrói. o revisitar do mito e da geografia dos amores de Pedro e Inês transforma-se num exercício de interrogação sobre o amor e as suas figurações no tempo do mito e no espaço prosaico do quotidiano:


«O corpo, a força, o fôlego, essa urgência
em dobrar Inês onde quer que calhe
e em penetrá-la, duro, a descobrir
os músculos secretos, o calor húmido
que nunca se conhece em pormenor
enquanto o amor investe enfurecido.
assim Pedro cumpriu a Criação,
pese a quem faz da lenda nuvens altas,
pois sexo e sono e tudo o que é humano
e pode ser gozado é do universo,
livre e total, e não sei porque as figuras
da história não haviam de fazê-lo,
a não ser por receio do ridículo,
quando os corações castos se imaginam
de calças atiradas para o chão
e os saiotes de Inês tão pouco práticos2


a estratégia é aqui, simultaneamente, a do confronto e a do reconhecimento das similitudes. o confronto entre a idealidade do mito e o prosaísmo de um quotidiano onde só degradado o mito parece ter lugar, e o reconhecimento no agora das mesmas inquietações que animaram os gestos inaugurais. tal estratégia tem algo de paradoxal, mas é eficaz: só mantendo a sua força simbólica pode o mito emergir do quotidiano, só mantendo a perenidade da pedra pode o mito transportar-se para os corpos vivos que atravessam a cidade.
como em todas as relações de natureza mitológica, estamos também diante de uma relação entre um antes e um depois. entre um antes, o tempo impreciso onde, in illo tempore, decorreu a acção fundadora, e o agora da sua repetição ritual (ou a profanação, também ela ritual). ao longo do livro, as figuras de Pedro e Inês vão-se desdobrando segundo uma lógica de confronto entre esse tempo do mito e o tempo contemporâneo, entre uma idealidade em que se finge acreditar (mas que só existe em função do olhar que instala a dúvida) e uma outra realidade da qual ela é um arremedo: ao mesmo tempo repetição ritual, e constatação crua da impossibilidade da repetição.
o livro é construído de forma programática: embora seja possível descontextualizar os textos sem lhes retirar valor, é no interior do todo que adquirem a sua verdadeira espessura. mas nisto o livro ganharia em intensidade se fosse mais condensado. não obstante o nível qualitativo ser muito homogéneo, a recorrência temática ao longo dos 63 textos do livro acaba por retirar alguma força ao conjunto. é uma opção válida, embora se perca em concentração aquilo que se ganha em desenvolvimento.
por detrás e para além desta focagem temática permanece aquilo que é uma postura de escrita com reconhecíveis marcas autorais: algo como um cinismo comprometido com aquilo de que duvida, vivendo precisamente da relação de recuo e do impulso para a aproximação. o lugar do autor não é aqui nem o do conforto inerente ao distanciamento crítico, nem o da proximidade da crença ou do afecto. é um lugar incerto, de margens sempre móveis, e por isso arriscado. assumindo o carácter perspectivado e condicionado de todo o discurso, é de si mesmo que ele duvida.





1. Nuno Dempster, Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Edições Sempre-Em-Pé, 2011, (63 p.), p. 34.
2. Idem, p. 20.