quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Nuno Dempster, Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo II





«Ali, numa esplanada sobre o mar
e óculos Ray-Ban, Pedro sorri
à aragem que passa, os membros lassos,
vazio o escroto, Inês de novo morta,
agora pelos anos. Teresa, essa
vive e dedica o corpo ao sol das ondas,
não se sabe se só deliquescente,
se orgulhosa de si, se as duas coisas,
vitória sobre Inês, morta de olvido:
o esquecimento apenas requer vida,
e assim se vai a lenda e amor tão alt.
O filho de Teresa há-de vingar,
e Pedro, com seus óculos de sol,
sorri à brisa e vai beberricando
a cerveja: “Afinal quem é o rei?
Quem?”, exulta. E, no mar, Teresa espera.» 1


há alguma coisa no uso criativo das linguagens que precede, subverte, e é condição de qualquer tentativa de desconstrução da tradição. a simples manutenção da escrita ou da arte no espaço simbólico e linguístico daquilo que se pretende questionar reconduz o questionamento ao plano do questionado. tal ambivalência funda a própria ideia de cultura: toda a inscrição é  potencialmente profanadora dos valores do passado e, ao mesmo tempo, a sua mais nítida realização.
é isto que o livro Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, de Nuno Dempster, nos mostra com particular presença. o programático Dolce Stil Nuovo é desde logo marca da consciência de uma dívida que só se paga na sua quase perversão.
por vezes há coisas que, contra todas as evidências, o olhar não vê. uma linha de leitura, um suplemento de complexidade, um ângulo a partir do qual a perspectiva se transfigura. não anula as anteriores, acrescenta-se-lhe. se é possível ler todo este livro sem verdadeiramente dar conta do uso de decassílabos heróicos (a modernidade do olhar, a postura iconoclasta quase rejeita à partida essa possibilidade), a consciência da métrica acrescenta um patamar de complexidade a todo o projecto. a opção pelos decassílabos espelha formalmente a opção de restituir o mito através de modelos poéticos nascidos em proximidade cronológica (que não geográfica) como a construção do mito. trata-se, em parte, de usar a linguagem do mito como instrumento de subversão do próprio mito.

desde Dante que toda uma tradição literária nos diz que é possível cantar o amor através de uma métrica decassilábica. Nuno Dempster demonstra-nos aqui que é possível subverter e profanar amor e tradição, realizando-os, através dessa mesma métrica. não é apenas uma questão formal. é um movimento de reenvio que produz não o conforto da repetição, mas a instabilidade da dúvida.



1. Nuno Dempster, Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Edições Sempre-Em-Pé, 2011, p. 52.