há
alguma literatura, e em particular alguma poesia, que tende a ceder à tentação
pueril de fazer um uso imediato do peso das palavras. como se a inscrição de uma
dada palavra num texto implicasse transportar para ele a densidade semântica dessa
palavra. não implica.
a
densidade de um texto (ou a leveza, ou a profundidade, ou a riqueza, ou a agressividade,
ou surpresa, ou o que quisermos possa constituir índice do seu eventual sentido e valor) não é o resultado da estrita presença ou ausência de um dado conjunto
de vocábulos, por muito ricos que estes possam parecer. a densidade de um texto
é função da forma como as palavras interagem no seu interior, não da capacidade
individual destas para indiciar um correlato semântico.
isto
não significa a neutralização do vocabulário: ele é, como dado prévio,
desigual. desigual mesmo face a si mesmo. significa, antes, a afirmação da
dependência das palavras relativamente ao seu contexto de actualização. seja
este contexto o próprio texto em que se inscrevem, seja a experiência que
produzem, seja o mundo no e diante do qual elas são lidas.
as
palavras significam sempre apenas aquilo que o texto em que se escrevem permite
que elas signifiquem. a sua densidade é a do texto, raramente o inverso. pretender
ancorar a solidez de um texto na suposta solidez de algumas palavras é incorrer
no risco de condenar a ambos, texto e palavras. com elas, contra elas, e apesar
delas.
