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(…)
No ataque da
madrugada de 27 de Julho, iniciado à 1 hora da manhã, foram lançadas dez mil
toneladas de bombas explosivas e incendiárias sobre a zona residencial
densamente povoada (…). Seguiu-se o processo já conhecido, todas as portas e
janelas foram arrancadas dos caixilhos mediante bombas explosivas de quatro mil
libras, a seguir ateados os últimos andares com misturas ígneas leves enquanto
as bombas incendiárias com 15 quilos de peso caíam nos andares inferiores.
Dentro de poucos minutos tudo ardia nos cerca de vinte quilómetros quadrados da
área-alvo em incêndios gigantescos, tão rapidamente ateados que um quarto de
hora depois da queda das primeiras bombas toda a atmosfera era um mar de chamas
até onde a vista alcançava. E passados mais cinco minutos, cerca da uma hora e
vinte, elevou-se uma tempestade de fogo de uma intensidade que até então se
julgaria impossível. O fogo, que se erguia a dois mil metros no ar, sugava o
seu oxigénio com tal força que as correntes de ar atingiram a violência de um
furacão e ressoavam como poderosos órgãos com todos os registos abertos ao
mesmo tempo. Tudo ardeu assim durante três horas. (…) » 1
diferença
de grau ou diferença de natureza? quantidade, qualidade? modelar o mundo é, num
mesmo gesto, construir e destruir, edificar e demolir, produzir memória e acumular
esquecimento. matar e morrer são parte do mesmo processo.
a
espantosa capacidade para produzir esquecimento parece ser uma condição de
sobrevivência. num passado não muito distante, o esquecimento dir-se-ia ser
apenas função do tempo: ao fim de alguns anos, e na ausência de testemunhos, a
escassez de registos votava ao esquecimento, ou à mitificação como ameaça
obscura nas sombras da história, mesmo os mais terríveis acontecimentos. hoje,
o esquecimento é sobretudo uma acção deliberada de destruição da memória. dos agressores
como das vítimas.
apenas
mais uma pergunta: qual a quantidade de esquecimento que é preciso acumular
para continuar a confiar no mundo e nos homens? qual a quantidade, qual a
intensidade, qual a violência deste esquecimento? confiar em quem, em nome de
quem, se entre uns e outros a diferença é somente a da quantidade?
1.
W. G. Sebald, História Natural da
Destruição, trad. de Telma Costa, Teorema, 2006, p. 30-31.
