Sexta-feira, 18 de Novembro de 2011

a destruição




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No ataque da madrugada de 27 de Julho, iniciado à 1 hora da manhã, foram lançadas dez mil toneladas de bombas explosivas e incendiárias sobre a zona residencial densamente povoada (…). Seguiu-se o processo já conhecido, todas as portas e janelas foram arrancadas dos caixilhos mediante bombas explosivas de quatro mil libras, a seguir ateados os últimos andares com misturas ígneas leves enquanto as bombas incendiárias com 15 quilos de peso caíam nos andares inferiores. Dentro de poucos minutos tudo ardia nos cerca de vinte quilómetros quadrados da área-alvo em incêndios gigantescos, tão rapidamente ateados que um quarto de hora depois da queda das primeiras bombas toda a atmosfera era um mar de chamas até onde a vista alcançava. E passados mais cinco minutos, cerca da uma hora e vinte, elevou-se uma tempestade de fogo de uma intensidade que até então se julgaria impossível. O fogo, que se erguia a dois mil metros no ar, sugava o seu oxigénio com tal força que as correntes de ar atingiram a violência de um furacão e ressoavam como poderosos órgãos com todos os registos abertos ao mesmo tempo. Tudo ardeu assim durante três horas. (…) » 1



diferença de grau ou diferença de natureza? quantidade, qualidade? modelar o mundo é, num mesmo gesto, construir e destruir, edificar e demolir, produzir memória e acumular esquecimento. matar e morrer são parte do mesmo processo.
a espantosa capacidade para produzir esquecimento parece ser uma condição de sobrevivência. num passado não muito distante, o esquecimento dir-se-ia ser apenas função do tempo: ao fim de alguns anos, e na ausência de testemunhos, a escassez de registos votava ao esquecimento, ou à mitificação como ameaça obscura nas sombras da história, mesmo os mais terríveis acontecimentos. hoje, o esquecimento é sobretudo uma acção deliberada de destruição da memória. dos agressores como das vítimas.
apenas mais uma pergunta: qual a quantidade de esquecimento que é preciso acumular para continuar a confiar no mundo e nos homens? qual a quantidade, qual a intensidade, qual a violência deste esquecimento? confiar em quem, em nome de quem, se entre uns e outros a diferença é somente a da quantidade?




1. W. G. Sebald, História Natural da Destruição, trad. de Telma Costa, Teorema, 2006, p. 30-31.