segunda-feira, 21 de novembro de 2011

a linguagem





« A natureza nunca diz ao artista: eis a boa apresentação; ao crítico: eis o bom comentário; ao filósofo: eis-te aqui, fala por mim. (…)
Ninguém sabe que “língua” o ser entende, nem que língua fala ou em que língua pode ser referido. Ninguém sabe se existe um único ser, ou vários, uma língua do ser ou se existem muitas. (…)
A arrogância implicada na forma do tratado filosófico consiste em afirmar: existe um único ser. Agrava-se quando se afirma: e fala só uma língua. Realiza-se ao supor que existe sem equívoco. Faz rir quando declara: vou contá-la». 1



escrever é um exercício de confiança. confiamos na linguagem com a fé de quem precisa de acreditar em si mesmo. com as mesmas dúvidas. o mundo como coisa humana é o produto desta confiança ou desta dúvida. mas sobretudo confiança, nas palavras ou em qualquer outra forma de organizar o pensamento como representação.
as linguagens são sempre instrumentos de poder. trata-se sempre de produzir nas palavras e nas representações o espaço necessário para manipular o mundo, para o reduzir aos termos em que ele poderá caber na linguagem. mas trata-se também de modelar a linguagem para que ela se possa moldar ao mundo.
de um modo tão dúctil quanto violento, as linguagens ajustam-se a uma realidade que no mesmo instante estão a transformar. a cada instante, tentam coincidir com aquilo que elas mesmas acabaram de transfigurar. não há um mundo humano anterior à linguagem, mas não há uma linguagem exterior ao mundo.
em nenhum momento, nenhuma neutralidade do mundo ou da linguagem pode fazer da fala, da escrita, da pintura, da fotografia ou de qualquer outra forma de representação, o instrumento adequado para no-lo revelar tal como ele é. não existe mundo tal como ele é, do mesmo modo que não existe uma linguagem capaz de no-lo revelar. 
não há revelação, apenas a longa, lenta e débil construção do discurso que melhor se poderá adaptar ao cenário. a longa, lenta e débil construção do cenário que melhor poderá corresponder ao discurso.
e aqui não existem privilégios. nem de língua nem de mundo. em cada um deles, o mesmo e manifesto movimento no escuro.





1. Jean-François Lyotard, “A filosofia e a pintura na era da sua experimentação”, Crítica, 2, 1987, p. 29.-35.