sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Nunes da Rocha, Cova Funda




«INVECTIVA DO MESTIÇO TOMÉ

A pavorosa realidade das coisas
É que me deixa assim:

Hei-de cinturão negro
Partir a boca ao capitalista de cartola & sobrecasaca,
Também àquele que não fuma Havanos,
E fazer uma revolução tal
Que até os cágados farão comités.

Porque eu sou
Quem raspa do nariz o laré
E sem discrição o cola às calças;
Aquele que tem pingo na braguilha,
Nódoa de vinho
E lágrima ao canto do olho,
Para comoção do neo-realista em trânsito.

Mas antes de tudo hei-de beber
Este tinto e aquele e aqueloutro
Porque a minha bebedeira há-de ser mais alta,
E mais que isso,
Uma pânria descalça
Até as fábricas pararem,
Os transportes às moscas
E as moscas também no desemprego,
Por não terem mais merda a chupar!

Ah, sinto que estou com uma dor de barriga,
Prestes a um dilúvio libertário!

Eu, que não conheço o Almada (sequer Cacilhas)
Nem o Álvaro, com quem fez panelinha, digo:
Carrega que é barco!» 1


se, como sugere Jacques Rancière, a arte moderna nasce no momento em que descobre ou assume que nenhum tema é superior a outro e que a identidade de uma obra não decorre da sua pertença a um qualquer género ou conteúdo temático, este livro é absolutamente moderno. ao contrário do irónica e conscientemente sugerido, é o trabalho de quem conhece o Almada e o Álvaro com intimidade suficiente para os subverter. nos três livros que compõem este volume (Unhacas & Calosidades Literárias, Cova Funda, e Levitação de Gothe d’Amadora) encontramos uma escrita desconstruída e questionadora num grau pouco habitual na poesia portuguesa. não há aqui nada da pose literária da poesia lírica de raiz renascentista e romântica, nada da subjectividade "poética" e intimista, mas também não há nada da esteticização da poesia do quotidiano dos poetas sem qualidades. o território é outro. autónomo, verdadeiramente crítico e subversivo.
do mesmo modo, apesar do pano de fundo de copos e taberna não há aqui nada da boémia, novecentista e esteticizada, de Manuel de Freitas. ao contrário, tudo surge cruamente colado aos seus próprios limites. mas também não encontramos o fervor neo-realista da denúncia de supostas iniquidades sociais: é a própria perversidade da língua que se cola à sordidez do olhar. tudo com a proximidade retoricamente empolada de quem encena a sua própria abjecção: como atitude consciente, não exactamente a opção de vida de quem não tem outra opção, mas a opção literária de quem o poderia dizer com outras palavras.

 « A LUTA DE CLASSES, SEGUNDO O FALÉ, REFORMADO DA SOREFAME

Nunca se encontram, as paralelas,
Nem aqui, nem no infinito, vem na geometria.
Mas se por apatia deparares passeios opostos,
Vê como as putas têm modos entre elas:
Umas fodem, outras exercem.» 2

a postura derrisória e sarcástica adopta por vezes a gravidade forçada com que a literatura de cordel tenta fazer de si mesma um objecto sério: mas é igualmente uma postura tão retórica quanto irónica. tal como o imediato das falas das personagens que sobem à cena em cada página é um falso imediato, todo o texto é criticamente consciente de si mesmo. o registo linguístico mantém-se ao longo do livro: culto quando aparenta ser popular, vincadamente vernáculo apesar da erudição. sem auto-complacência nem melancólicas auto-comiserações. 
talvez condenado à rotineira indiferença com que os trabalhos verdadeiramente subversivos são recebidos, este é um livro de uma força pouco habitual na poesia portuguesa.


1. Nunes da Rocha, Cova Funda, taverna exemplaríssima para os lados da antiga Porcalhota, de que o autor faz testemunho, com larga cópia de figuras, experiência de brancos & tintos, retirando do lugar ilação forte ao modo do século anterior; testemunho precedido de Unhacas & Calosidades Literárias e seguido de Levitação de Gothe d’Amadora, crendo deste modo ter pé assente na História da Literatura do século seguinte, & etc, 2011, (49 p.), p. 23, 24.
2. Idem, p. 25.