o
olhar da literatura, como da arte, é um olhar condicionado. assumidamente
condicionado. seja por pressupostos ou preconceitos de género, de estrato
social, de opção ideológica, de subjectividade ou de opções estéticas.
nunca é
legítimo pedir à arte que nos devolva o mundo tal como ele é. não apenas porque
nunca sabemos o que é isso do mundo
tal como ele é, mas porque a modelação da linguagem por si produzida induz
e aprofunda o efeito de condicionamento. se qualquer linguagem condiciona, a
arte instala-se no espaço desse condicionamento. se qualquer linguagem está
atravessada pelo ruído, a arte é ela própria ruído.
na
melhor das possibilidades, poder-se-ia pedir à arte que nos mostrasse o mundo
tal como ele poderia ser (ou deveria, segundo o registo ideológico). mas mesmo
esse possível é já uma consequência do condicionamento de prévio. logo, é um
possível condicionado, tão ou tão-pouco possível quanto qualquer outro.
