« MATRIOSCAS
Nasciam
umas das outras parecidíssimas
como
matrioscas uma crescendo apenas
para
que a seguinte lhe coubesse dentro e
o
ciclo se perpetuasse regulares
amantes
de indistintos colectores de
cartão
usado donos de motorizadas
sebosas
e ladrões mal sucedidos de
electrodomésticos
amiúde presos
que
os entretanto soltos revezavam entre
as
pernas delas: um qualquer numa qualquer. » 1
há
alguma coisa de paradoxal na revista Criatura. a elementaridade de meios e de processos
torna surpreendente a eficácia do resultado. é aqui manifesto que o funda um
projecto literário colectivo é a existência de critérios. opções assumidas,
conduzidas com a intransigência possível. no estado de rarefacção do meio
editorial, um projecto como este é valioso. valioso, mesmo se aqui ou além o critério editorial talvez pudesse ser um pouco mais
apertado.
neste
número, há vários motivos de leitura. o regresso de António Gregório é
claramente um deles. com uma escrita mais contida e imediata do que em momentos
anteriores, os textos são aqui curtos e directos. a tendência narrativista, que
curiosamente atravessa a maior parte dos autores neste número (e não apenas),
surge aqui reduzida a uma formulação muito elementar dos traços diegéticos. a percepção
de que, para contar uma história, não é preciso recorrer a todos os factos, nem
a todas as palavras, confere a esta poesia uma força singular.
o
tom é tendencialmente amargo, raramente cínico. da reprodução da miséria ao
reconhecimento da identidade, o que está em causa não é construir um correlato
escrito do mundo, mas reconstruí-lo segundo o sentido do texto:
«ESPLANADA
Tornou-se
um hábito confirmar no placard
necrológico
à entrada da Praça a minha
não-morte
(vida seria exagero) antes
de
pedir o café: poupo sessenta e cinco
cêntimos
não envergonho a cafeína — e
ser-me-ia
insuportavelmente triste o
sorriso
da rapariga que o traz à mesa. » 2
a
penetração desta escrita revela-se no modo como, por exemplo e neste texto,
todo o poema aponta voluntariamente desde o início numa direcção equívoca, segundo
um processo que é o de criativamente proceder à manipulação das expectativas do
leitor. aquilo que se inicia num registo quase analítico, produzindo uma
cortina de cepticismo, prepara, sem antecipar, a transformação da percepção nos
versos finais. e se a irrupção de subjectividade dos dois últimos versos se
sustenta no despir da máscara de cepticismo, ela envolve-se nela, apesar de
tudo.
1.
António Gregório, in Criatura 6, Núcleo Autónomo Calíope da Associação
Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011, p. 49.
2.
Idem, p. 51.
