sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

António Gregório, Criatura 6




 « MATRIOSCAS


Nasciam umas das outras parecidíssimas
como matrioscas uma crescendo apenas
para que a seguinte lhe coubesse dentro e
o ciclo se perpetuasse regulares
amantes de indistintos colectores de
cartão usado donos de motorizadas
sebosas e ladrões mal sucedidos de
electrodomésticos amiúde presos
que os entretanto soltos revezavam entre
as pernas delas: um qualquer numa qualquer. » 1



há alguma coisa de paradoxal na revista Criatura. a elementaridade de meios e de processos torna surpreendente a eficácia do resultado. é aqui manifesto que o funda um projecto literário colectivo é a existência de critérios. opções assumidas, conduzidas com a intransigência possível. no estado de rarefacção do meio editorial, um projecto como este é valioso. valioso, mesmo se aqui ou além o critério editorial talvez pudesse ser um pouco mais apertado.
neste número, há vários motivos de leitura. o regresso de António Gregório é claramente um deles. com uma escrita mais contida e imediata do que em momentos anteriores, os textos são aqui curtos e directos. a tendência narrativista, que curiosamente atravessa a maior parte dos autores neste número (e não apenas), surge aqui reduzida a uma formulação muito elementar dos traços diegéticos. a percepção de que, para contar uma história, não é preciso recorrer a todos os factos, nem a todas as palavras, confere a esta poesia uma força singular.
o tom é tendencialmente amargo, raramente cínico. da reprodução da miséria ao reconhecimento da identidade, o que está em causa não é construir um correlato escrito do mundo, mas reconstruí-lo segundo o sentido do texto:


«ESPLANADA

Tornou-se um hábito confirmar no placard
necrológico à entrada da Praça a minha
não-morte (vida seria exagero) antes
de pedir o café: poupo sessenta e cinco
cêntimos não envergonho a cafeína — e
ser-me-ia insuportavelmente triste o
sorriso da rapariga que o traz à mesa. » 2


a penetração desta escrita revela-se no modo como, por exemplo e neste texto, todo o poema aponta voluntariamente desde o início numa direcção equívoca, segundo um processo que é o de criativamente proceder à manipulação das expectativas do leitor. aquilo que se inicia num registo quase analítico, produzindo uma cortina de cepticismo, prepara, sem antecipar, a transformação da percepção nos versos finais. e se a irrupção de subjectividade dos dois últimos versos se sustenta no despir da máscara de cepticismo, ela envolve-se nela, apesar de tudo.




1. António Gregório, in Criatura 6, Núcleo Autónomo Calíope da Associação Académica da Faculdade de Direito de Lisboa, 2011, p. 49.
2. Idem, p. 51.