Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

a emoção II



«Absurda, completamente absurda. Mas o seu encanto era tão forte, pelo menos para ela, Clarissa, tanto que se lembrava de ficar no quarto no sótão da casa com o jarro de água quente na mão, a dizer em voz alta: “Ela está debaixo deste tecto… Ela está debaixo deste tecto!”
Não, estas palavras já não significavam agora para ela absolutamente nada. (…)» 1


mas dizê-la é ainda supor que existe. não apenas que ainda existe, mas simplesmente que existe. aqui, agora, algures, algum dia. que existe como possibilidade, no texto ou no mundo.
se aceitarmos como manifesta a sua existência enquanto experiência partilhada, o que está em causa é a sua modulação. o modo como acede ao texto e como do texto se transpõe para o mundo.
está em causa a violência com que o sentimento se impõe como norma, critério, objectivo em si mesmo. a intensidade, o arrebatamento. o não ser capaz de saber o seu próprio nome. ou o ser capaz de não saber o seu próprio nome.
a  capacidade de sentir não é uniforme nem constante. o entusiasmo e a exaltação afectiva são momentos de excepção, tão raros quanto quase improváveis. a literatura, como o cinema ou a música, tende a fazer uso dessa excepção. encena-a, promete-no-la, ensina a reconhece-la, a procurá-la, a produzi-la, fazendo-nos, no mínimo, acreditar que existe.





1. Virginia Woolf, Mrs. Dalloway, trad. de Ricardo Alberty, Ulisseia, 1982, p. 35-36.