«Absurda,
completamente absurda. Mas o seu encanto era tão forte, pelo menos para ela,
Clarissa, tanto que se lembrava de ficar no quarto no sótão da casa com o jarro
de água quente na mão, a dizer em voz alta: “Ela está debaixo deste tecto… Ela
está debaixo deste tecto!”
Não,
estas palavras já não significavam agora para ela absolutamente nada. (…)» 1
mas
dizê-la é ainda supor que existe. não apenas que ainda existe, mas simplesmente
que existe. aqui, agora, algures, algum
dia. que existe como possibilidade, no texto ou no mundo.
se
aceitarmos como manifesta a sua existência enquanto experiência partilhada, o
que está em causa é a sua modulação. o modo como acede ao texto e como do
texto se transpõe para o mundo.
está
em causa a violência com que o sentimento se impõe como norma, critério,
objectivo em si mesmo. a intensidade, o arrebatamento. o não ser capaz de saber
o seu próprio nome. ou o ser capaz de não saber o seu próprio nome.
a capacidade de sentir não é uniforme nem constante.
o entusiasmo e a exaltação afectiva são momentos de excepção, tão raros quanto
quase improváveis. a literatura, como o cinema ou a música, tende a fazer uso dessa
excepção. encena-a, promete-no-la, ensina a reconhece-la, a procurá-la, a
produzi-la, fazendo-nos, no mínimo, acreditar que existe.
1.
Virginia Woolf, Mrs. Dalloway, trad.
de Ricardo Alberty, Ulisseia, 1982, p. 35-36.
