Domingo, 4 de Dezembro de 2011

a emoção I





« (…) Clara desceu a escada devagar segurando o cesto de uvas.
    “Um cacho de uvas brancas e dois de pretas”, disse ela e pôs duas grandes parras sobre as uvas mornas enroscadas no cesto.
    “Gostei muito”, disse Jacob olhando para o fundo da estufa.
    “Também eu, foi óptimo”, disse ela vagamente.
    “Oh, Miss Durrant”, disse ele pegando no cesto das uvas, mas ela continuou a caminhar em direcção à porta da estufa.
    “É tão bom — bom demais”, pensou ela, pensando em Jacob, pensando que ele não podia dizer que a amava. Não, não, não1

a dificuldade não é dizê-la, como quem estende o indicador na direcção da lua. não é indicá-la, como quem enuncia uma evidência ou recorda uma coisa conhecida, fazendo apelo às experiências do leitor. verídicas ou fictícias. a dificuldade é produzi-la, construí-la no encadeamento narrativo, na brevidade de um texto.
e isto sem que para isso seja necessário prescindir da reserva, se não mesmo do cinismo, que deve suportar todas as representações, anteceder toda a escrita.





1. Virginia Woolf, O Quarto de Jacob, trad. de Maria Teresa Guerreiro, Cotovia, 1989, p. 80.