«
(…) Clara desceu a escada devagar
segurando o cesto de uvas.
“Um cacho de uvas brancas e dois de pretas”,
disse ela e pôs duas grandes parras sobre as uvas mornas enroscadas no cesto.
“Gostei muito”, disse Jacob olhando para o
fundo da estufa.
“Também eu, foi óptimo”, disse ela
vagamente.
“Oh, Miss Durrant”, disse ele pegando no
cesto das uvas, mas ela continuou a caminhar em direcção à porta da estufa.
“É tão bom — bom demais”, pensou ela,
pensando em Jacob, pensando que ele não podia dizer que a amava. Não, não, não.» 1
a
dificuldade não é dizê-la, como quem estende o indicador na direcção da lua.
não é indicá-la, como quem enuncia uma evidência ou recorda uma coisa conhecida, fazendo apelo às experiências do leitor. verídicas
ou fictícias. a dificuldade é produzi-la, construí-la no encadeamento
narrativo, na brevidade de um texto.
e
isto sem que para isso seja necessário prescindir da reserva, se não mesmo do
cinismo, que deve suportar todas as representações, anteceder toda a escrita.
1.
Virginia Woolf, O Quarto de Jacob,
trad. de Maria Teresa Guerreiro, Cotovia, 1989, p. 80.
