segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

a instituição





«De cada vez que falamos da “instituição” em vez de falarmos de “nós”, repudiamos o nosso papel na criação e perpetuação das suas condições. Fugimos à nossa responsabilidade perante, ou contra, as cumplicidades quotidianas, os compromissos, a censura — sobretudo a auto-censura —, que são dirigidos pelos nossos próprios interesses, e pelos benefícios que daí extraímos. Não é uma questão de interior e exterior, ou de número e de escala dos vários lugares organizados de produção, apresentação e distribuição da arte. Não é uma questão de ser contra a instituição: nós somos a instituição. É uma questão de que tipo de instituição somos, que tipo de valores nós institucionalizamos, que tipo de práticas nós recompensamos, a que tipo de recompensa nós aspiramos.» 1


nós, não os outros.
admitamos como possível que nos acolhamos sob este nós. admitamos a possibilidade de transpor para o âmbito da literatura isto que acima se define no plano mais restrito da arte contemporânea.
ao nível da literatura, é um nós que cobre uma comunidade de produtores e de consumidores, de agentes de edição e de distribuição, de venda e de mediação crítica. um nós suficientemente plural para frequentemente podermos pretender que se trata de um eles. mas é um nós, e não um eles, qualquer que seja o papel desempenhado por cada um em cada momento (e muitas vezes são vários os papéis desempenhados de forma sucessiva ou simultânea).
nós, apesar de tudo. apesar da diferença de papéis, dos pesos diferenciados e abissalmente assimétricos ao nível dos processos de decisão. nós, mesmo que seja ínfima a parcela de poder que partilhamos no interior daquilo a que chamamos literatura, e de um modo mais vasto comunidade, e de um modo mais vasto país, e de um modo mais vasto mundo.
e, se somos nós, que tipo de práticas nós recompensamos, a que tipo de recompensa nós aspiramos?




1. Andrea Fraser, «From the Critique of Institutions to an Institution of Critique», in Institutional Critique and After, JRP/Ringier, 2006, p. 133.