«De
cada vez que falamos da “instituição” em vez de falarmos de “nós”, repudiamos o
nosso papel na criação e perpetuação das suas condições. Fugimos à nossa
responsabilidade perante, ou contra, as cumplicidades quotidianas, os compromissos,
a censura — sobretudo a auto-censura —, que são dirigidos pelos nossos próprios
interesses, e pelos benefícios que daí extraímos. Não é uma questão de interior
e exterior, ou de número e de escala dos vários lugares organizados de
produção, apresentação e distribuição da arte. Não é uma questão de ser contra
a instituição: nós somos a instituição. É uma questão de que tipo de
instituição somos, que tipo de valores nós institucionalizamos, que tipo de
práticas nós recompensamos, a que tipo de recompensa nós aspiramos.» 1
nós, não os outros.
admitamos como possível que nos acolhamos sob este nós. admitamos a possibilidade de transpor para o âmbito da
literatura isto que acima se define no plano mais restrito da arte
contemporânea.
ao
nível da literatura, é um nós que cobre uma comunidade de produtores e de
consumidores, de agentes de edição e de distribuição, de venda e de mediação
crítica. um nós suficientemente plural para frequentemente podermos pretender que
se trata de um eles. mas é um nós, e não um eles, qualquer que seja o papel
desempenhado por cada um em cada momento (e muitas vezes são vários os papéis
desempenhados de forma sucessiva ou simultânea).
nós,
apesar de tudo. apesar da diferença de papéis, dos pesos diferenciados e abissalmente
assimétricos ao nível dos processos de decisão. nós, mesmo que seja ínfima a parcela
de poder que partilhamos no interior daquilo a que chamamos literatura, e de um
modo mais vasto comunidade, e de um modo mais vasto país, e de um modo mais
vasto mundo.
e,
se somos nós, que tipo de práticas nós
recompensamos, a que tipo de recompensa nós aspiramos?
1. Andrea
Fraser, «From the Critique of Institutions to an Institution of Critique», in Institutional
Critique and After, JRP/Ringier, 2006, p. 133.
