a
escrita não é sempre um processo de decisão consciente que possa ser duplicado
pela consciência do leitor. só em parte a escrita é um processo de decisão. as
mais das vezes é o resultado de um conjunto mais ou menos arbitrário de
indecisões, de dúvidas, de soluções de recurso. diz-se não exactamente aquilo
que se quer dizer (se é que existe um querer-dizer anterior ao processo de
escrita), mas aquilo que na relação contextual e imediata se consegue que o
discurso produza.
se
é a espessura da linguagem que suporta o discurso, é essa mesma espessura que
se faz opacidade. na escrita como na leitura.
acresce
a isto que a ideia de intenção do autor tende a menosprezar a natureza intuitiva
dos processos criativos. aquilo que é da ordem da intuição não pré-existe à
escrita, é-lhe simultâneo. a intuição corresponde não à irrupção fortuita do
irracional no interior de um processo guiado pela racionalidade, mas a algo de
determinante no processo. a intuição é aqui aquilo que, no trabalho criativo,
se apresenta não como o resultado de um encadeado de razões, de forma
argumentativa, mas sim como a emergência de um possível que nenhuma cadeia de
razões poderia permitir antecipar.
é
este possível que ultrapassa quer a ideia de intenção do autor, quer a ideia de
leitura como recuperação de um estádio inicial do texto ou da obra. o possível
da escrita não pode transformar-se no condicionado da leitura.
