Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

a intenção do autor II





a escrita não é sempre um processo de decisão consciente que possa ser duplicado pela consciência do leitor. só em parte a escrita é um processo de decisão. as mais das vezes é o resultado de um conjunto mais ou menos arbitrário de indecisões, de dúvidas, de soluções de recurso. diz-se não exactamente aquilo que se quer dizer (se é que existe um querer-dizer anterior ao processo de escrita), mas aquilo que na relação contextual e imediata se consegue que o discurso produza.
se é a espessura da linguagem que suporta o discurso, é essa mesma espessura que se faz opacidade. na escrita como na leitura.
acresce a isto que a ideia de intenção do autor tende a menosprezar a natureza intuitiva dos processos criativos. aquilo que é da ordem da intuição não pré-existe à escrita, é-lhe simultâneo. a intuição corresponde não à irrupção fortuita do irracional no interior de um processo guiado pela racionalidade, mas a algo de determinante no processo. a intuição é aqui aquilo que, no trabalho criativo, se apresenta não como o resultado de um encadeado de razões, de forma argumentativa, mas sim como a emergência de um possível que nenhuma cadeia de razões poderia permitir antecipar.
é este possível que ultrapassa quer a ideia de intenção do autor, quer a ideia de leitura como recuperação de um estádio inicial do texto ou da obra. o possível da escrita não pode transformar-se no condicionado da leitura.