Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

a intenção do autor I





o texto que o autor nos propõe é uma  pergunta ou uma resposta? se for uma pergunta, nada obriga que as respostas que cada leitor lhe dê coincidam com aquelas que seriam as respostas do autor (se tivesse algumas). se for uma resposta, nada obriga que ela corresponda e responda à perguntas do leitor.
um texto, como qualquer obra de arte, é num mesmo gesto um somatório incerto de perguntas e de respostas. nunca ou raramente a relação de leitura é uma relação de coincidência entre as formuladas pelo autor e as acessíveis ao leitor. este é o espaço, ao mesmo tempo estreito e dilatado, daquilo a que chamamos intenção do autor.
deverá a leitura constituir uma duplicação do acto de escrita? a resposta será, em simultâneo, liminarmente negativa, e em si mesma problemática. a negativa diz respeito à forma básica com ela é formulada. nestes termos, a resposta só pode ser não. por outro lado, é problemática enquanto a leitura constitui, de facto, a actualização de uma experiência produzida inicialmente no acto de escrita.
deverá a interpretação tomar como base o gesto intencional do autor? esta formulação fica mais próxima dos termos em que a questão pode ser equacionada. mas também aqui é legítimo o plano da simples recusa: é lícito entender o texto como aberto, processual na sua mais profunda identidade. diante disto, qualquer valor de natureza fundacional constitui um entrave inaceitável à apropriação individual por parte de cada leitura. mas o inverso também não é completamente sustentável: não é possível tomar o texto como coisa natural, independente do conjunto de convenções no interior das quais foi produzido, e, aqui, as convenções propostas pelo autor surgem como centrais. 
será, então, possível assumir o  valor indicativo da intenção do autor? o seu valor simbólico, referencial? talvez seja. mas para tal é necessário saber o que se entende por intenção do autor.
nada no interior de uma representação complexa como é um texto, um poema, um romance ou qualquer obra de arte, responde apenas por uma intenção, única, singular e determinante.
mais do que por uma intenção, um texto é constituído pelos pequenos gestos, as pequenas opções, as pequenas intenções que formam não uma única intenção, mas um fluxo multi-direccional e a muitos níveis paradoxal de decisões e acaso, determinação e indecisão.
perguntar nos mesmos termos em que se responde, responder nos mesmos termos em que se pergunta.