o
texto que o autor nos propõe é uma pergunta ou uma resposta? se for uma pergunta,
nada obriga que as respostas que cada leitor lhe dê coincidam com aquelas que
seriam as respostas do autor (se tivesse algumas). se for uma resposta, nada
obriga que ela corresponda e responda à perguntas do leitor.
um
texto, como qualquer obra de arte, é num mesmo gesto um somatório incerto de
perguntas e de respostas. nunca ou raramente a relação de leitura é uma relação
de coincidência entre as formuladas pelo autor e as acessíveis ao leitor. este
é o espaço, ao mesmo tempo estreito e dilatado, daquilo a que chamamos intenção
do autor.
deverá
a leitura constituir uma duplicação do acto de escrita? a resposta será, em
simultâneo, liminarmente negativa, e em si mesma problemática. a negativa diz
respeito à forma básica com ela é formulada. nestes termos, a resposta só pode
ser não. por outro lado, é problemática enquanto a leitura constitui, de facto,
a actualização de uma experiência produzida inicialmente no acto de escrita.
deverá
a interpretação tomar como base o gesto intencional do autor? esta formulação fica
mais próxima dos termos em que a questão pode ser equacionada. mas também aqui é
legítimo o plano da simples recusa: é lícito entender o texto como aberto,
processual na sua mais profunda identidade. diante disto, qualquer valor de natureza
fundacional constitui um entrave inaceitável à apropriação individual por parte
de cada leitura. mas o inverso também não é completamente sustentável: não é
possível tomar o texto como coisa natural, independente do conjunto de
convenções no interior das quais foi produzido, e, aqui, as convenções
propostas pelo autor surgem como centrais.
será,
então, possível assumir o valor
indicativo da intenção do autor? o seu valor simbólico, referencial? talvez
seja. mas para tal é necessário saber o que se entende por intenção do autor.
nada
no interior de uma representação complexa como é um texto, um poema, um romance
ou qualquer obra de arte, responde apenas por uma intenção, única, singular e
determinante.
mais
do que por uma intenção, um texto é constituído pelos pequenos gestos, as pequenas
opções, as pequenas intenções que formam não uma única intenção, mas um fluxo
multi-direccional e a muitos níveis paradoxal de decisões e acaso, determinação
e indecisão.
perguntar nos mesmos termos em que se responde, responder nos
mesmos termos em que se pergunta.
