sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

João Miguel Fernandes Jorge, Lagoeiros




« ESCHSCHOLZIA

Além naquele requebro sobre o mar, ao passar o pinhal
e os cálices brancos da esteva (tão grandes nunca assim os vi
no continente) está o chão amarelo Chamisso. É a eschscholzia.
Semelhante à vulgar papoila
se não fora o amarelo intenso
sobre o mar da ilha
estremece ao menor sopro de vento
ferida de pele queimada que recorda vencedores e derrotados
 no plaino de Waterloo.

Pôs o chapéu de palha e levou-me pelo caminho da casa velha,
acachorrada, campestre. Em voz medida, a flor do acaso
rente ao passar — eufórbia, trevo rosa, artemisa,
o azul da chicória, a sombra desenhada da bardana, o
caminho do herbário. Na despedida,
não sei porque me disse em castelhano Y
las más de las veces la excelencia
sólo está en los mimados por los dioses. O obscuro azul da noite
descia, triste cravo de bronze sobre a leal flor
do linho que vinga sem cuidado. » 1


em voz medida. talvez esta seja a mais, ou uma das mais, justa caracterização da escrita de João Miguel Fernandes Jorge. um registo contido, mas sem que essa contenção restrinja o trabalho sobre a língua e sobre a experiência.  o processo de escrita passa pela poetização do banal, mas nunca pela pretensão de uma transposição neutra (ou supostamente crua, ou supostamente fria, ou supostamente pobre, etc.) do imediato da experiência.
é uma poesia da mediação. a mediação entre o sujeito e o mundo, entre o agora e a história, entre o aqui e aquilo que só na sua ausência se faz presença. o transpor para a escrita da experiência do tempo comum, do espaço quotidiano, implica um discreto movimento de transfiguração que no-los dá a ver como construção cultural, como mundo talvez acessível a um olhar sensível e sensibilizado.
não é uma escrita das coisas como elas são, é a escrita das coisas como elas podem ser, num movimento que confere à poesia uma possibilidade de compreensão que é sempre linguística, embora nela nunca se esgote. 
por isso, enquanto experiência de mediação e enquanto proposta de compreensão, o olhar tende a integrar a história como parte da experiência do agora, a integrar os dados da arte ou da ciência como parte do processo de nomeação do mundo.
nomear, aqui, é atravessar as terras e as gentes com um acréscimo de espessura. é esta espessura que se escreve sempre como memória ou como promessa, percorrida por uma mal contida mágoa de ser apenas isso, promessa ou memória, e nunca, em momento algum, coisa susceptível de posse ou de consciência.


 « CRISTAIS DE ÁGUA

para João Maria Gusmão e Pedro Paiva

E pergunto-me “Onde fica a revolução, onde
fica o socialismo?”
A revolução foi liquidada antes do seu início, os primeiros
fumos não passaram do desenlace.
Quanto à dor, cristais de gelo rasgam,
nunca se perde dentro de nós, grito que está por
detrás de outro grito, chama-se História — fantasma de
um mundo que por sua vez se
chama Geografia. A dor nunca se perde: lama e pus —
 repercute-se em sangue.

Epimeteu não cessa de esquecer. Prometeu
antecipa e memoriza — o azul conhece o vermelho, o
corpo sabe o exacto lugar da sua sombra, o lado do
triângulo reconhece os outros dois lados, Castor e
Polux prevêem a sua unidade física.
Prazer extremo de passar do erro ao acto — a passagem.» 2


o tempo como ameaça e como possibilidade: é este movimento de reenvio do objecto para o contexto, do sujeito para cenário, que impede ao mesmo tempo a redução de um e de outro a uma qualquer relação de apropriação. esta passagem é o nome da recondução da promessa à pura possibilidade, do acontecido àquilo que terá de acontecer.

este livro, que retoma o imaginário insular (e seria fácil extrapolar daqui a insularidade da escrita do autor — o que talvez fosse verdade numa perspectiva sociologico-literária, mas não numa acepção mais profunda, pois ela é como poucas parte do tempo e da história que a institui), traz-nos um olhar que é delicadamente reconhecível. um olhar que nunca é exterior àquilo que é dito, mas com o qual verdadeiramente não interage.
nunca há um mau poema em João Miguel Fernandes Jorge. aqui ou além há textos que seriam prescindíveis, não exactamente porque sejam maus, mas porque são apenas a manutenção de um contínuo de percepção que age pela transposição da experiência para a escrita. um contínuo de transposição da experiência subjectiva para a possibilidade de experiência colectiva que é a poesia.
aqui ou além, a lentidão ou alguma passividade do olhar que perspectiva o mundo contagia o discurso que o diz, produzindo uma falta de acutilância verbal que ameaça transformar a escrita numa longa conversa a meia voz. uma longa conversa onde é difícil que sobressaiam a dor ou a alegria, a surpresa ou a repetição. mas é esta, com estes riscos, a marca da voz medida que constrói esta escrita. uma escrita de uma densidade e de uma espessura com poucos paralelos na poesia portuguesa das últimas décadas.




1. João Miguel Fernandes Jorge, Lagoeiros, Relógio D’Água, 2011, p. 39.
2. Idem, p. 87.