« ESCHSCHOLZIA
Além
naquele requebro sobre o mar, ao passar o pinhal
e
os cálices brancos da esteva (tão grandes nunca assim os vi
no
continente) está o chão amarelo Chamisso. É a eschscholzia.
Semelhante
à vulgar papoila
se
não fora o amarelo intenso
sobre
o mar da ilha
estremece
ao menor sopro de vento
ferida
de pele queimada que recorda vencedores e derrotados
no plaino de Waterloo.
Pôs
o chapéu de palha e levou-me pelo caminho da casa velha,
acachorrada,
campestre. Em voz medida, a flor do acaso
rente
ao passar — eufórbia, trevo rosa, artemisa,
o
azul da chicória, a sombra desenhada da bardana, o
caminho
do herbário. Na despedida,
não
sei porque me disse em castelhano Y
las más de las veces la excelencia
sólo está en los mimados por los dioses. O
obscuro azul da noite
descia,
triste cravo de bronze sobre a leal flor
do
linho que vinga sem cuidado. »
1
em
voz medida. talvez
esta seja a mais, ou uma das mais, justa caracterização da escrita de João
Miguel Fernandes Jorge. um registo contido, mas sem que essa contenção
restrinja o trabalho sobre a língua e sobre a experiência. o processo de escrita passa pela poetização do
banal, mas nunca pela pretensão de uma transposição neutra (ou supostamente
crua, ou supostamente fria, ou supostamente pobre, etc.) do imediato da
experiência.
é uma poesia da mediação. a
mediação entre o sujeito e o mundo, entre o agora e a história, entre o aqui e aquilo
que só na sua ausência se faz presença. o transpor para a escrita da experiência
do tempo comum, do espaço quotidiano, implica um discreto movimento de
transfiguração que no-los dá a ver como construção cultural, como mundo talvez acessível
a um olhar sensível e sensibilizado.
não é uma escrita das coisas
como elas são, é a escrita das coisas como elas podem ser, num movimento que
confere à poesia uma possibilidade de compreensão que é sempre linguística,
embora nela nunca se esgote.
por isso, enquanto experiência de mediação e
enquanto proposta de compreensão, o olhar tende a integrar a história como
parte da experiência do agora, a integrar os dados da arte ou da ciência como
parte do processo de nomeação do mundo.
nomear, aqui, é atravessar as terras e as gentes com um acréscimo de espessura. é esta espessura que se escreve sempre
como memória ou como promessa, percorrida por uma mal contida mágoa de ser apenas
isso, promessa ou memória, e nunca, em momento algum, coisa susceptível de posse
ou de consciência.
« CRISTAIS
DE ÁGUA
para
João Maria Gusmão e Pedro Paiva
E
pergunto-me “Onde fica a revolução, onde
fica
o socialismo?”
A
revolução foi liquidada antes do seu início, os primeiros
fumos
não passaram do desenlace.
Quanto
à dor, cristais de gelo rasgam,
nunca
se perde dentro de nós, grito que está por
detrás
de outro grito, chama-se História — fantasma de
um
mundo que por sua vez se
chama
Geografia. A dor nunca se perde: lama e pus —
repercute-se em sangue.
Epimeteu
não cessa de esquecer. Prometeu
antecipa
e memoriza — o azul conhece o vermelho, o
corpo
sabe o exacto lugar da sua sombra, o lado do
triângulo
reconhece os outros dois lados, Castor e
Polux
prevêem a sua unidade física.
Prazer
extremo de passar do erro ao acto — a passagem.» 2
o tempo como ameaça e como
possibilidade: é este movimento de reenvio do objecto para o contexto, do sujeito para
cenário, que impede ao mesmo tempo a redução de um e de outro a uma qualquer relação
de apropriação. esta passagem é o
nome da recondução da promessa à pura possibilidade, do acontecido àquilo que
terá de acontecer.
este livro, que retoma o
imaginário insular (e seria fácil extrapolar daqui a insularidade da escrita do
autor — o que talvez fosse verdade numa perspectiva sociologico-literária, mas
não numa acepção mais profunda, pois ela é como poucas parte do tempo e da história
que a institui), traz-nos um olhar que é delicadamente reconhecível. um olhar
que nunca é exterior àquilo que é dito, mas com o qual verdadeiramente não interage.
nunca há um mau poema em João
Miguel Fernandes Jorge. aqui ou além há textos que seriam prescindíveis, não
exactamente porque sejam maus, mas porque são apenas a manutenção de um
contínuo de percepção que age pela transposição da experiência para a escrita.
um contínuo de transposição da experiência subjectiva para a possibilidade de experiência colectiva que é a poesia.
aqui ou além, a lentidão ou alguma
passividade do olhar que perspectiva o mundo contagia o discurso que o diz, produzindo
uma falta de acutilância verbal que ameaça transformar a escrita numa longa
conversa a meia voz. uma longa conversa onde é difícil que sobressaiam a dor ou
a alegria, a surpresa ou a repetição. mas é esta, com estes riscos, a marca da voz medida que constrói esta escrita.
uma escrita de uma densidade e de uma espessura com poucos paralelos na poesia
portuguesa das últimas décadas.
1. João Miguel Fernandes Jorge,
Lagoeiros, Relógio D’Água, 2011, p. 39.
2. Idem, p. 87.
