«
(…) e eu lembro-me então de me ter
deitado muito tarde depois de um movimento de cólera ou de ironia contra uma
frase de Proust, elogiada num livro desta colecção, “O Contemporâneos”, e que
diz: “Uma obra onde há teorias é como um objecto no qual deixámos a etiqueta do
preço”, e eu não encontro nada de mais vulgar do que este decoro
franco-britânico, na verdade europeu, a que eu associo Joyce, Heidegger,
Wittgenstein e mais alguns outros, a literatura de salão desta república de
letras, um arremedo de bom gosto suficientemente ingénuo para acreditar que se
pode apagar o trabalho da teoria, como se ela não existisse em Pr., e medíocre,
acreditar sobretudo que se pode apagar o preço a pagar (…) » 1
todo
o uso da língua é convencional. não existe um estado neutro ou privilegiado que assegure à literatura uma natureza "literária”. são convencionais os procedimentos de modelação do texto, são convencionais as estratégias de leitura.
é convencional a fronteira que separa o uso literário de usos presumivelmente
mais técnicos como o jornalismo, o ensaio, ou a filosofia. nestes como noutros casos, a
delimitação procede menos da língua do que daquilo que ela constrói.
nesta
acepção, aquilo que constrói a literatura é apenas a perspectiva que adopta, no interior de uma mesma amálgama de palavras e silêncios, estruturas sintácticas e regras gramaticais, determinações e possibilidades semânticas.
a teoria, de que aqui nos fala Derrida, é mais um dos nomes para a literatura: lugar de interacção de palavras às quais pedimos que nos digam o mundo. que no-lo mostrem, que no-lo questionem, que no-lo inventem como possibilidade. o resto é somente uma questão de grau.
a teoria, de que aqui nos fala Derrida, é mais um dos nomes para a literatura: lugar de interacção de palavras às quais pedimos que nos digam o mundo. que no-lo mostrem, que no-lo questionem, que no-lo inventem como possibilidade. o resto é somente uma questão de grau.
o
que é que um texto pode pedir aos leitores em troca daquilo que terá para
oferecer? qual o grau
de exigência e de complexidade que um livro ou um poema pode desenvolver sem
cortar as pontes com o leitor?
quaisquer
que sejam as respostas a estas questões, elas terão de passar por assumir a natureza
gradativa do uso da linguagem. a complexidade é sempre gradativa, é sempre função do
domínio que em cada momento cada sujeito possui.
se
não há um registo ou um patamar natural do literário, todas as distinções se situam
no plano da convenção. a identidade ou o valor de um texto é sempre
convencional. nunca função de uma qualquer propriedade intrínseca.
é
convencional, convencionado, e sempre negociável o preço que em cada momento aceitamos pagar.
de um dos lados, o
preço, qualquer que ele seja, é função daquilo que o autor pode ou está
disposto a exigir. do outro lado, daquilo que o leitor pode ou está disposto a despender.
a possibilidade de responder à exigência do texto passa primeiro pela capacidade de reconhecer que, nos melhores casos, o
preço é sempre justo e está sempre inflacionado, crescendo a cada tentativa de cobrir o lanço
anterior.
1. Jacques Derrida, Circonfession, Derrida, (Jacques Derrida e Geoffrey Bennington),
Éditions du Seuil, 2008, p. 61-62.
