(em
causa própria)
passei
o verão e o outono a assistir à morte de um livro. demorou mais de sete anos a estar
terminado, morreu no espaço de duas estações.
editado,
os volume foram distribuídos, sumariamente expostos, e rapidamente devolvidos à
editora. da imprensa, nem os quatro parágrafos do espaço editorial dos dois ou
três lugares da divulgação e da crítica instituída.
o
bom senso e a crença na própria ideia de crítica dizem-nos que, se de forma tão
unânime um livro cai no espaço dúbio do infra-criticável, é provável que o
mereça. neste caso, duvido convictamente.
é
um romance duro, provavelmente difícil, mas de uma espessura pouco comum, tanto
em termos de escrita como de narrativa.
morreu
antes de ter adquirido existência enquanto coisa pública (e, afinal, é apenas
esse o sentido da publicação de um livro). nem sequer é legítima a pretensão
ingénua de que o tempo e a história o poderiam reabilitar. raramente os romances são objecto de recuperação história, e mais raramente ainda o são
pelos leitores. estará morto, portanto. começava assim:
« a posse não é
cumulativa. a posse, a aprendizagem e a memória, alguma coisa que só se
acrescenta por subtracção. um movimento seco, sem referência exterior. isto,
aqui, agora, cada coisa por si. uma depois da outra. uma e outra articuladas
pelo movimento de deslocação. de ali até ali, um primeiro passo. e depois
outro, semelhante no espaço ao espaço ocupado pelo anterior. ou um pouco menos.
e a isso soma-se uma espécie de pressa, sem mais o que perder.
permaneci
na cidade por mais dois dias. o tempo apenas de percorrer as lojas da baixa e
comprar duas malas, roupa, sapatos, uma carteira. um relógio. entregaram-me o
carro na manhã do terceiro dia. documentos, seguro, registo de propriedade. era
um automóvel escuro, de estofos de couro e linhas sóbrias. passei pelo hotel
para levantar as malas e dirigi-me para sul. forcei-me a fazê-lo, a avançar e a
parar. de norte para sul, depois para o interior, evitando as cidades e o
litoral povoado. conduzia devagar, cento e cinquenta quilómetros por dia,
duzentos, por estradas secundárias. parava a meio da tarde e procurava onde
ficar. hotéis de passagem, pensões de beira de estrada.» 1
1.
H. G. Cancela, De Re Rustica, Edições
Afrontamento, 2011, (223 p.).
