Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

ver morrer um livro




(em causa própria)

passei o verão e o outono a assistir à morte de um livro. demorou mais de sete anos a estar terminado, morreu no espaço de duas estações.
editado, os volume foram distribuídos, sumariamente expostos, e rapidamente devolvidos à editora. da imprensa, nem os quatro parágrafos do espaço editorial dos dois ou três lugares da divulgação e da crítica instituída.
o bom senso e a crença na própria ideia de crítica dizem-nos que, se de forma tão unânime um livro cai no espaço dúbio do infra-criticável, é provável que o mereça. neste caso, duvido convictamente.
é um romance duro, provavelmente difícil, mas de uma espessura pouco comum, tanto em termos de escrita como de narrativa.
morreu antes de ter adquirido existência enquanto coisa pública (e, afinal, é apenas esse o sentido da publicação de um livro). nem sequer é legítima a pretensão ingénua de que o tempo e a história o poderiam reabilitar. raramente os romances são objecto de recuperação história, e mais raramente ainda o são pelos leitores. estará morto, portanto. começava assim:




«   a posse não é cumulativa. a posse, a aprendizagem e a memória, alguma coisa que só se acrescenta por subtracção. um movimento seco, sem referência exterior. isto, aqui, agora, cada coisa por si. uma depois da outra. uma e outra articuladas pelo movimento de deslocação. de ali até ali, um primeiro passo. e depois outro, semelhante no espaço ao espaço ocupado pelo anterior. ou um pouco menos. e a isso soma-se uma espécie de pressa, sem mais o que perder.
   permaneci na cidade por mais dois dias. o tempo apenas de percorrer as lojas da baixa e comprar duas malas, roupa, sapatos, uma carteira. um relógio. entregaram-me o carro na manhã do terceiro dia. documentos, seguro, registo de propriedade. era um automóvel escuro, de estofos de couro e linhas sóbrias. passei pelo hotel para levantar as malas e dirigi-me para sul. forcei-me a fazê-lo, a avançar e a parar. de norte para sul, depois para o interior, evitando as cidades e o litoral povoado. conduzia devagar, cento e cinquenta quilómetros por dia, duzentos, por estradas secundárias. parava a meio da tarde e procurava onde ficar. hotéis de passagem, pensões de beira de estrada.» 1





1. H. G. Cancela, De Re Rustica, Edições Afrontamento, 2011, (223 p.).