«
VIÚVAS
Ana
e Catarina, ou Antígona e Cassandra,
tanto
faz. Vão de preto, são viúvas.
E
em tudo parecem experimentadas e vizinhas
da
última jornada. Utilizai, ainda assim,
o
vermelhão — é sempre bom para dar nas faces
e
na boca, onde o lábio superior, em todo o caso,
deverá
ser mais coroado que o de baixo.
Depois
abri os olhos a pincel e as sobrancelhas.
Há
quem ria para não chorar, gente que pratica
a
automedicação, procedimentos de rotina
para
esquecer as infracções da juventude.
Envelhecer,
envelhecer. Não se importam
que
paremos, que façamos outra coisa?
Ana
e Catarina, ou Antígona e Cassandra,
fraco
resultado para duas lendas vivas. » 1
a
escrita de Vitor Nogueira é singularmente precedida por um movimento de recuo retórico
sobre a própria linguagem. apenas uns milímetros. o suficiente para produzir o
enquadramento cénico, o leve empolamento do discurso que, de forma subtil,
ironiza no mesmo gesto o objecto que é dito e o discurso que o tenta transpor
para a língua.
este
recuo afecta não apenas a formalização verbal do enunciados, mas também o olhar
que perspectiva o mundo. é um mundo suspenso da convenção linguística que o
instala no texto: tão ou tão-pouco real quanto o próprio texto. tão
convencional quanto ele.
o
novo livro de Vitor Nogueira surge-nos, tal como os anteriores, subordinado a
um enquadramento temático. no caso, é a cidade, motivo recorrente nos textos do
autor, que se apresenta como objecto de representação. “copiar uma cidade”
pareceria supor a colagem do discurso ao objecto. a cópia supõe uma relação
mimética de duplicação de um enunciado ou de uma representação. a cópia perfeita
seria aquela que mantivesse, face ao original, o mesmo registo linguístico, o
mesmo vocabulário, numa substituição do texto ou da coisa pela sua
representação. nesta acepção, mas apenas nesta, a cópia de uma cidade que Vítor
Nogueira nos propõe é extremamente imperfeita: não duplica, transpõe, não repete,
transforma, não imita, subverte. omite, subjectiviza, enfatiza.
trata-se
de mapear o urbano a partir dos costume e das personagens. perspectivar o
espaço a partir dos seus habitantes, cartografar o lugar a partir do uso. perspectivar
os habitantes a partir do espaço que ocupam. ou seja, a partir do enquadramento
cenográfico que escolhem ou aceitam como seu. e este espaço não é apenas o das
coisas materiais, mas, mais profundo, o das relações e das representações.
«VISÍVEL
Nenhuma
coisa visível se vê toda juntamente.
Na
arte como na vida, agora que falas disso.
Alguns,
porém, investem muito tempo
a
melhorar o seu disfarce, contornam a forma
como
produzimos as vacinas, aprendem
a
reconhecer os sinais,
perseguem
facilmente sem se deixarem ver.
À
primeira mordedura, que tantos consideram
crucial
e decisiva, recriam regiões amputada
nos
seus corpos. Difíceis de aplacar, começam
o
processo do princípio. Depois, enfim, aguardam.
Aguardam
que algo morra, consultam o oráculo,
respiram
dentro de água e fora dela
—
às vezes até entram pela rede dos esgotos.
Diria
que é assim, se bem conheço os corvos. » 2
se,
aqui ou além, o referido recuo retórico
face ao real se faz obstáculo a uma maior acutilância verbal e imagética, esta
é compensada pela forma subtil com que o
evidente é subvertido para se manifestar como problema. a subtileza deste olhar
e deste discurso é de uma enorme propriedade num tempo em que parece ganhar
terreno a estratégia criativa da enunciação do óbvio. o visível (aquilo que é
dado pelo olhar) é quase imperceptivelmente modelado pelo dispositivo
linguístico que o enuncia. o resultado é já não a evidência (muito menos o
óbvio), mas o dubitativo. a dúvida que de si mesma faz profissão de fé. e isto
talvez pudesse constituir uma definição da própria ideia de literatura.
1.
Vítor Nogueira, Modo Fácil de Copiar uma
Cidade, & etc, 2011, ( 46 p. ), p. 9.
2.
Idem, p. 25.
