sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Vítor Nogueira, Modo Fácil de Copiar uma Cidade




« VIÚVAS

Ana e Catarina, ou Antígona e Cassandra,
tanto faz. Vão de preto, são viúvas.
E em tudo parecem experimentadas e vizinhas
da última jornada. Utilizai, ainda assim,

o vermelhão — é sempre bom para dar nas faces
e na boca, onde o lábio superior, em todo o caso,
deverá ser mais coroado que o de baixo.
Depois abri os olhos a pincel e as sobrancelhas.
Há quem ria para não chorar, gente que pratica
a automedicação, procedimentos de rotina
para esquecer as infracções da juventude.

Envelhecer, envelhecer. Não se importam
que paremos, que façamos outra coisa?
Ana e Catarina, ou Antígona e Cassandra,
fraco resultado para duas lendas vivas. » 1


a escrita de Vitor Nogueira é singularmente precedida por um movimento de recuo retórico sobre a própria linguagem. apenas uns milímetros. o suficiente para produzir o enquadramento cénico, o leve empolamento do discurso que, de forma subtil, ironiza no mesmo gesto o objecto que é dito e o discurso que o tenta transpor para  a língua.
este recuo afecta não apenas a formalização verbal do enunciados, mas também o olhar que perspectiva o mundo. é um mundo suspenso da convenção linguística que o instala no texto: tão ou tão-pouco real quanto o próprio texto. tão convencional quanto ele.
o novo livro de Vitor Nogueira surge-nos, tal como os anteriores, subordinado a um enquadramento temático. no caso, é a cidade, motivo recorrente nos textos do autor, que se apresenta como objecto de representação. “copiar uma cidade” pareceria supor a colagem do discurso ao objecto. a cópia supõe uma relação mimética de duplicação de um enunciado ou de uma representação. a cópia perfeita seria aquela que mantivesse, face ao original, o mesmo registo linguístico, o mesmo vocabulário, numa substituição do texto ou da coisa pela sua representação. nesta acepção, mas apenas nesta, a cópia de uma cidade que Vítor Nogueira nos propõe é extremamente imperfeita: não duplica, transpõe, não repete, transforma, não imita, subverte. omite, subjectiviza, enfatiza.
trata-se de mapear o urbano a partir dos costume e das personagens. perspectivar o espaço a partir dos seus habitantes, cartografar o lugar a partir do uso. perspectivar os habitantes a partir do espaço que ocupam. ou seja, a partir do enquadramento cenográfico que escolhem ou aceitam como seu. e este espaço não é apenas o das coisas materiais, mas, mais profundo, o das relações e das representações.

«VISÍVEL

Nenhuma coisa visível se vê toda juntamente.
Na arte como na vida, agora que falas disso.
Alguns, porém, investem muito tempo
a melhorar o seu disfarce, contornam a forma
como produzimos as vacinas, aprendem
a reconhecer os sinais,
perseguem facilmente sem se deixarem ver.

À primeira mordedura, que tantos consideram
crucial e decisiva, recriam regiões amputada
nos seus corpos. Difíceis de aplacar, começam
o processo do princípio. Depois, enfim, aguardam.
Aguardam que algo morra, consultam o oráculo,
respiram dentro de água e fora dela
— às vezes até entram pela rede dos esgotos.

Diria que é assim, se bem conheço os corvos. » 2


se, aqui ou além,  o referido recuo retórico face ao real se faz obstáculo a uma maior acutilância verbal e imagética, esta é compensada pela  forma subtil com que o evidente é subvertido para se manifestar como problema. a subtileza deste olhar e deste discurso é de uma enorme propriedade num tempo em que parece ganhar terreno a estratégia criativa da enunciação do óbvio. o visível (aquilo que é dado pelo olhar) é quase imperceptivelmente modelado pelo dispositivo linguístico que o enuncia. o resultado é já não a evidência (muito menos o óbvio), mas o dubitativo. a dúvida que de si mesma faz profissão de fé. e isto talvez pudesse constituir uma definição da própria ideia de literatura.





1. Vítor Nogueira, Modo Fácil de Copiar uma Cidade, & etc, 2011, ( 46 p. ), p. 9.
2. Idem, p. 25.