Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

a alter-modernidade





« Muitos indícios sugerem que o período histórico definido pelo pós-modernismo está a terminar: o multiculturalismo e o discurso da identidade estão a ser ultrapassados por um movimento planetário de crioulização; o relativismo cultural e a desconstrução, que substituíram o universalismo modernista, não nos dão armas contra a dupla ameaça da uniformização da cultura de massas e de uma regressão reaccionária de extrema-direita.
Os tempos parecem propícios para a recomposição de uma modernidade no presente, reconfigurados de acordo com o específico contexto em que vivemos — crucial na era da globalização — entendido nos seus aspectos económicos, políticos e culturais: uma alter-modernidade. (…)» 1



aquilo que, no já longínquo ano de 2009, Nicolas Bourriaud nos propõe é uma nova encarnação do espírito panfletário do modernismo: mudar o mundo, mudando-lhe o nome, mudar a história, assinalando-lhe um sentido, e encontrando no tempo as possibilidades de ultrapassar os seus próprios constrangimentos. 
boa parte do século XX construiu-se sobre este propósito, ou sobre esta ficção. provavelmente o que de mais rico o século XX nos legou assentou na crença na natureza revolucionária do próprio tempo. provavelmente, o que de mais terrível o século XX produziu assentou nos mesmos pressupostos. 
o pós-modernismo, a muitos títulos parte da história da modernidade, constituiu, nos melhores exemplos, uma tentativa de a reescrever sem anestesiar as suas potencialidades subversivas. é isso que autores como Derrida, Deleuze ou Lyotard nos propõem: submeter o legado moderno (e mais latamente o legado cultural do ocidente) a um exercício interno de radicalização que tem como resultado uma decisiva forma de questionamento — aquela que subverte os pressupostos da sua própria acção crítica. 
a esta luz, a tentativa de Nicolas Bourriaud de marcar a história através de um nome tem o voluntarismo, a ingenuidade e o oportunismo que são inseparáveis da modernidade. 
e tem também a virtude de tornar claro que a modernidade é ainda o pano de fundo em que nos movemos: o cenário diante do qual teremos de definir a nossa identidade. seja contra, através, ou na ficção de que o podemos ignorar.





 1. Nicolas Bourriaud, "Altermodern Manifesto: Postmodernism Is Dead", AlterModern: Trienal, Tate Britain, 2009.