« Muitos indícios sugerem
que o período histórico definido pelo pós-modernismo está a terminar: o multiculturalismo
e o discurso da identidade estão a ser ultrapassados por um movimento
planetário de crioulização; o relativismo cultural e a desconstrução, que
substituíram o universalismo modernista, não nos dão armas contra a dupla
ameaça da uniformização da cultura
de massas e de uma regressão reaccionária de extrema-direita.
Os tempos
parecem propícios para a recomposição de uma modernidade no presente, reconfigurados
de acordo com o específico contexto em que vivemos — crucial na era da
globalização — entendido nos seus aspectos económicos, políticos e culturais:
uma alter-modernidade. (…)» 1
aquilo
que, no já longínquo ano de 2009, Nicolas
Bourriaud nos propõe é uma nova encarnação do espírito panfletário do
modernismo: mudar o mundo, mudando-lhe o nome, mudar a história, assinalando-lhe
um sentido, e encontrando no tempo as possibilidades de ultrapassar os seus
próprios constrangimentos.
boa parte do século XX construiu-se sobre este
propósito, ou sobre esta ficção. provavelmente o que de mais rico o século XX
nos legou assentou na crença na natureza revolucionária do próprio tempo. provavelmente, o que de mais terrível o século XX produziu assentou nos mesmos
pressupostos.
o pós-modernismo, a muitos títulos parte da história da
modernidade, constituiu, nos melhores exemplos, uma tentativa de a reescrever sem
anestesiar as suas potencialidades subversivas. é isso que autores como
Derrida, Deleuze ou Lyotard nos propõem: submeter o legado moderno (e mais
latamente o legado cultural do ocidente) a um exercício interno de radicalização que tem como resultado
uma decisiva forma de questionamento — aquela que subverte os pressupostos da
sua própria acção crítica.
a esta luz, a tentativa de Nicolas Bourriaud de marcar
a história através de um nome tem o voluntarismo, a ingenuidade e o oportunismo que são inseparáveis da modernidade.
e tem também a virtude de tornar claro que a modernidade
é ainda o pano de fundo em que nos movemos: o cenário diante do
qual teremos de definir a nossa identidade. seja contra, através, ou na ficção
de que o podemos ignorar.
