«que atraso de vida cochicham elas
queixando-se por a vida quantas vezes
marcar passo, ignorando porém como
nesse aparente vagar outra bem mais profunda
se antecipar já se instalar e portanto
quer queiram quer não e
muito provavelmente não
contudo já se inicia ou até por hipótese
simplesmente continua sucedendo
surpreendendo-as certo dia
desprevenidas belas embevecidas
» 1
no panorama literário contemporâneo, e ao nível da poesia, Bénédicte
Houart é dos poucos autores que se arriscam verdadeiramente por propostas de escrita menos reconhecíveis. o comum da poesia contemporânea (e provavelmente
o comum da literatura, contemporânea ou não) é instalar-se no espaço
confortavelmente reconhecível do poético e do literário. um espaço antecipável
pelo autor, como estratégia de produção, e facilmente reconhecível pelos
leitores.
este espaço de conforto permite muitas
vezes produzir, em diferentes autores, textos assinaláveis de força e de
penetração. tem consigo a vantagem de possibilitar trabalhar no interior de
convenções linguísticas e estéticas demarcadas, potenciando um frequentemente
aturado trabalho da língua, produto e legado de uma comunidade de autores que
exploram ou exploraram as possibilidades abertas pelas suas premissas.
mas este conforto do antecipável comporta
também o risco do fechamento anestesiante, o estiolar da língua pela repetição
do mesmo. muitas vezes, nasce daqui uma poesia que se desenvolve de um modo
mais ou menos epigonal como instrumento de auto-reprodução.
é fora deste fechamento homorreferencial
que o melhor da poesia de Bénédicte Houart de desenvolve. a autora arrisca
trabalhar a língua, arriscando com isso frustrar ou potenciar quer as
expectativas do leitor (que coincidem normalmente com aquelas que o hábito
produz, mesmo que seja o hábito do “poético”), quer as suas próprias. um poema
como este que atraso de vida cochicham
elas, é revelador de um trabalho da escrita que corporiza na língua aquilo
que se propõe dizer: não há uma tese, há um vai e vem de hesitações, de saltos,
de quebras de concordância, etc. o corpo da língua é objecto de distorção,
conseguindo com isso potenciar aquilo (o quê?) que talvez quisesse dizer.
«a mulher bebeu 4 finos e despiu-se
começou por descalçar-se, depois
pensou e já agora, e
entregou o corpo ao ar
jorrando da ventoinha do café
alguns riram outros lamentaram
quase todos a invejaram enquanto
ela a passos largos nuíssima se afastava
no dia em que cumpriu setenta primaveras e
todas eclodiram um tanto ou quanto subitamente
» 2
neste texto, o que constitui objecto de
surpresa é, no mesmo plano, o insólito do objecto de narração e, novamente, o
exercício deceptivo de frustrar as expectativas do leitor: a nudez que se
anuncia não é exactamente aquela que se realiza, obrigando a reformular retrospectivamente
o sentido dos primeiros versos. poder-se-iam acumular outros bons exemplos
desta estratégia criativa, tão lúdica quanto séria, de manipulação da língua e
de manipulação das evidências.
e isto faz parte de uma relação com a
escrita que tem tanto de lúdico quanto de uma profundidade quase metafísica.
esta ambiguidade é fundadora: por vezes no mesmo poema, no mesmo verso, a
alteração de registos ou de referente semântico impele a um exercício de ironia
contida que aproxima os seus textos de um nunca ultrapassado limiar do absurdo.
é neste limiar, entre aquilo que se
pretende dizer e a consciência do derrisório que é tentar dizê-lo (ou tentar
compreendê-lo, ou tentar vivê-lo) que a escrita de Bénédicte Houart alcança o
seu melhor.
no extremo oposto, temos, e neste livro
com uma frequência superior ao desejável, uma concessão consciente a um registo
mais imediatamente reconhecível como “poético”. talvez aqui o nível alcançado
não seja inferior aos de outros autores que, como norma, se situam nesse registo.
mas é inferior ao plano de exigência definido pelos melhores textos da própria
autora.
por isso, este seu quarto livro é talvez
o mais desequilibrado. ao lado de alguns textos que são claramente dos melhores
por si publicados, há outros que teriam sido prescindíveis. mas os méritos do
livro estão assegurados: os primeiros compensam largamente os segundos.
1. Bénédicte
Houart, Vida: Variações II, Edições
Cotovia, 2011, (92 p), p. 16.
2.
Idem, p. 78.
