«
O silêncio
Ao
que veio de mim queria saudá-lo
como
se fosse um estrangeiro
e
de entre o meio das pedras
aparecendo-me,
rosto queimado de sol,
abraçá-lo
e perguntar-lhe sem medo
que
estradas havia percorrido. Sentando-me
com
ele lado a lado, como se de mim
não
viesse, saudando-o
como
a um irmão sob o sol tímido
de
um verão por florir, iria humilde
saber
dele. Pois o próximo deve encontrar
o
que lhe é próximo, o que celebra ir
junto
do que quer celebrar. Assim
com
o olhar quando na desmesura
de
desejar a um outro reconhece em
outro
olhar o idêntico, aquele que de sempre
o
procurava. E indo a ele, ao que de mim veio,
oferecer-lhe
onde pousar o corpo
sobre
o linho, deixá-lo no repouso adormecer,
guardar-lhe
o sono. Sabendo intimamente
que
aos pés da esfinge
nada
jamais é inútil. » 1
Nos
tempos que correm, exige algum arrojo a publicação de um livro como este. É um
livro arriscado, tanto nos textos como nas opções gráficas. Radica nisso o que
o livro possui de mais ou de menos conseguido. Este risco é desde logo a opção
consciente de não se render ao pressuposto do cinismo ou do cepticismo como condição do contemporâneo. O exercício da dúvida que se revela nestes textos
não exclui a possibilidade da crença, implica-a — uma dubitativa forma de crença.
Se o referente gráfico imediato
do livro talvez seja o surrealismo, o verdadeiro suporte estético destes textos
é o romantismo. O romantismo pleno de Hölderlin ou o romantismo moderno de Rilke. É neste plano que Bernardo pinto de Almeida alcança maior brilho: na quase fundadora
e consciente inocência de quem acredita na palavra como lugar de efectivação da
experiência. Esta, num gesto reiterado, serve de suporte à escrita e de instrumento
de mediação do real. A subjectividade que o romantismo revelou não se confunde
com a estrita experiência interior do sujeito, com a pura afectividade.
Comporta-a, mas é sobretudo lugar de modelação da realidade como coisa humana.
O real surge, assim, voluntariamente
perspectivado (modelado, condicionado, distorcido, reconstruído, efectivado) a
partir de um investimento afectivo que o constitui como correlato partilhável
de uma experiência mediada pela subjectividade.
Esta perspectivação subjectiva
não exclui, no entanto, a consciência crítica e reflexiva, exige-a como elemento
fundador. A reflexividade que percorre os textos não é a outra face de uma
mesma moeda, pois isso implicaria ainda acentuar uma relação de oposição dicotómica
entre os dois níveis. É, antes, a mesma face de uma moeda paradoxal que só tem
essa ou nenhuma: o devir-reflexão do sentimento e o devir-sentimento da
reflexão corresponde à identificação do plano do interior como lugar de
revelação do exterior.
« (…) Mas
pode o saber do erro corrigir
o acto antes mesmo de ser
feito? Depois
do fim saberemos o que foi
haver princípio para sempre. O
belamente princípio, a
transtornada
conjungação das sílabas mais
fortes. As
vogais abertas nas vozes que,
tremendo,
exultavam a alegria de ser
perpétuo o início,
ou para sempre o riso
à nossa volta. (…) » 2
A língua em que o mundo se diz
não é senão a parte mais subjectiva e a mais partilhável da própria experiência.
É nesta falsa dualidade que este livro se desenvolve. Negócios em Ítaca (e só por si o título valeria o livro) funda-se
nesta consciência crítica de uma identidade que se constrói na ameaça de se
desmoronar. Funda-se na consciência dos limites da consciência, mas também na
percepção (ou na crença) da possibilidade de os ultrapassar. Esta é uma
possibilidade linguística e representacional, e também nisto se sublinha o contemporâneo
romantismo da escrita: na dúvida, mas contra a dúvida, abre-se uma estreita
possibilidade de absoluto. No mínimo, o das relações humanas, no máximo, o da própria
representação.
O risco deste livro passa
igualmente pelas opções gráficas. Num retomar de propósitos surrealistas de subversão
do sentido verbal do texto pela interacção com a imagem, encontramos os poemas
intercalados com um conjunto de fotografias da autoria de Isabel Lopes Gomes. Se
o propósito é o de efectivar no livro, enquanto coisa material, uma subtracção ou perturbação do sentido verbal do texto, pelo confronto com um nível de representação que
não lhe é nem redutível, nem verdadeiramente comensurável, então, o propósito
talvez seja conseguido.
Mas, não estando em causa as imagens
em si mesmas, este exercício de subversão imagética do plano verbal faz-se à custa da
introdução de um ruído gráfico que em parte encobre a legibilidade dos textos,
exigindo um esforço suplementar para recentrar a atenção na leitura. É pena, mas o livro merece este esforço suplementar: estão aqui alguns dos poemas mais conseguidos do
autor.
1.
Bernardo Pinto de Almeida, Negócios em Ítaca,
Relógio d’Água, 2011, (50 p.), p. 38.
2. Idem, O fim,
p. 28.
