terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Bernardo Pinto de Almeida, Negócios em Ítaca




« O silêncio

Ao que veio de mim queria saudá-lo
como se fosse um estrangeiro
e de entre o meio das pedras
aparecendo-me, rosto queimado de sol,
abraçá-lo e perguntar-lhe sem medo
que estradas havia percorrido. Sentando-me
com ele lado a lado, como se de mim
não viesse, saudando-o
como a um irmão sob o sol tímido
de um verão por florir, iria humilde
saber dele. Pois o próximo deve encontrar
o que lhe é próximo, o que celebra ir
junto do que quer celebrar. Assim
com o olhar quando na desmesura
de desejar a um outro reconhece em
outro olhar o idêntico, aquele que de sempre
o procurava. E indo a ele, ao que de mim veio,
oferecer-lhe onde pousar o corpo
sobre o linho, deixá-lo no repouso adormecer,
guardar-lhe o sono. Sabendo intimamente
que aos pés da esfinge
nada jamais é inútil. » 1


Nos tempos que correm, exige algum arrojo a publicação de um livro como este. É um livro arriscado, tanto nos textos como nas opções gráficas. Radica nisso o que o livro possui de mais ou de menos conseguido. Este risco é desde logo a opção consciente de não se render ao pressuposto do cinismo ou do cepticismo como condição do contemporâneo. O exercício da dúvida que se revela nestes textos não exclui a possibilidade da crença, implica-a — uma dubitativa forma de crença.
Se o referente gráfico imediato do livro talvez seja o surrealismo, o verdadeiro suporte estético destes textos é o romantismo. O romantismo pleno de Hölderlin ou o romantismo moderno de Rilke. É neste plano que Bernardo pinto de Almeida alcança maior brilho: na quase fundadora e consciente inocência de quem acredita na palavra como lugar de efectivação da experiência. Esta, num gesto reiterado, serve de suporte à escrita e de instrumento de mediação do real. A subjectividade que o romantismo revelou não se confunde com a estrita experiência interior do sujeito, com a pura afectividade. Comporta-a, mas é sobretudo lugar de modelação da realidade como coisa humana.
O real surge, assim, voluntariamente perspectivado (modelado, condicionado, distorcido, reconstruído, efectivado) a partir de um investimento afectivo que o constitui como correlato partilhável de uma experiência mediada pela subjectividade.
Esta perspectivação subjectiva não exclui, no entanto, a consciência crítica e reflexiva, exige-a como elemento fundador. A reflexividade que percorre os textos não é a outra face de uma mesma moeda, pois isso implicaria ainda acentuar uma relação de oposição dicotómica entre os dois níveis. É, antes, a mesma face de uma moeda paradoxal que só tem essa ou nenhuma: o devir-reflexão do sentimento e o devir-sentimento da reflexão corresponde à identificação do plano do interior como lugar de revelação do exterior.

«    (…)  Mas
pode o saber do erro corrigir
o acto antes mesmo de ser feito? Depois
do fim saberemos o que foi
haver princípio para sempre. O
belamente princípio, a transtornada
conjungação das sílabas mais fortes. As
vogais abertas nas vozes que, tremendo,
exultavam a alegria de ser perpétuo o início,
ou para sempre o riso
à nossa volta. (…) » 2

A língua em que o mundo se diz não é senão a parte mais subjectiva e a mais partilhável da própria experiência. É nesta falsa dualidade que este livro se desenvolve. Negócios em Ítaca (e só por si o título valeria o livro) funda-se nesta consciência crítica de uma identidade que se constrói na ameaça de se desmoronar. Funda-se na consciência dos limites da consciência, mas também na percepção (ou na crença) da possibilidade de os ultrapassar. Esta é uma possibilidade linguística e representacional, e também nisto se sublinha o contemporâneo romantismo da escrita: na dúvida, mas contra a dúvida, abre-se uma estreita possibilidade de absoluto. No mínimo, o das relações humanas, no máximo, o da própria representação.
O risco deste livro passa igualmente pelas opções gráficas. Num retomar de propósitos surrealistas de subversão do sentido verbal do texto pela interacção com a imagem, encontramos os poemas intercalados com um conjunto de fotografias da autoria de Isabel Lopes Gomes. Se o propósito é o de efectivar no livro, enquanto coisa material, uma subtracção ou perturbação do sentido verbal do texto, pelo confronto com um nível de representação que não lhe é nem redutível, nem verdadeiramente comensurável, então, o propósito talvez seja conseguido.
Mas, não estando em causa as imagens em si mesmas, este exercício de subversão imagética do plano verbal faz-se à custa da introdução de um ruído gráfico que em parte encobre a legibilidade dos textos, exigindo um esforço suplementar para recentrar a atenção na leitura. É pena, mas o livro merece este esforço suplementar: estão aqui alguns dos poemas mais conseguidos do autor.





1. Bernardo Pinto de Almeida, Negócios em Ítaca, Relógio d’Água, 2011, (50 p.), p. 38.
2. Idem, O fim, p. 28.