«Não,
emocionado eu não estava. Estava fascinado. Como se um véu se tivesse rasgado.
No marfim daquele rosto vi uma expressão de orgulho sombrio, indomável poder,
de abjecto terror — de um desespero intenso e sem esperança. Naquele supremo
instante de integral conhecimento, estaria ele a reviver a vida em todo o pormenor,
com seus desejos, tentações e renúncias? Deu um grito sussurrado a uma imagem
qualquer, a uma visão qualquer — gritou duas vezes, um grito que não passava de
um sopro…
“O
horror! O horror!”
Apaguei
a vela e saí da cabina.» 1
o
coração não é apenas o espaço de projecção da sensibilidade, é também e sobretudo
o marcador semântico da profundidade da experiência. o limite ínfimo, ao mesmo
tempo material e imaterial, entre a vida e a morte, entre a consciência e a privação.
a
iniciática subida de Marlow ao longo do rio Congo, em busca de Kurtz, define a
negro carregado os limites de uma noção de sujeito de raízes iluministas. não é apenas a lucidez mental de Kurtz que se
faz questão, o que fica questionado é a ideia de uma humanidade racional o
suficiente para se permitir dominar o mundo. ao escapar à racionalidade, Kurtz
torna-se inapropriável pela civilização. a hýbris é
ela própria a única medida de si mesma. sem critério, princípio de organização
ou objectivo que lhe seja exterior. a única revelação possível, a de um horror
sem sujeito, não é uma aquisição racional, como não é racional o fascínio de
Marlow perante a revelação.
o
coração das trevas marca simultaneamente
o espaço físico do interior africano e o campo simbólico da demência de Kurtz.
mas marca também, denso e ante-verbal, o espaço interior da própria
consciência. ao dar a ver aquilo que há para ver, revela que talvez apenas com
o coração isso possa ser apreensível.
1.
Joseph Conrad, O Coração das Trevas,
trad. de Aníbal Fernandes, Editorial Estampa, 1999, p. 119.
