Terça-feira, 10 de Janeiro de 2012

o coração II




«Não, emocionado eu não estava. Estava fascinado. Como se um véu se tivesse rasgado. No marfim daquele rosto vi uma expressão de orgulho sombrio, indomável poder, de abjecto terror — de um desespero intenso e sem esperança. Naquele supremo instante de integral conhecimento, estaria ele a reviver a vida em todo o pormenor, com seus desejos, tentações e renúncias? Deu um grito sussurrado a uma imagem qualquer, a uma visão qualquer — gritou duas vezes, um grito que não passava de um sopro…
“O horror! O horror!”
Apaguei a vela e saí da cabina1



o coração não é apenas o espaço de projecção da sensibilidade, é também e sobretudo o marcador semântico da profundidade da experiência. o limite ínfimo, ao mesmo tempo material e imaterial, entre a vida e a morte, entre a consciência  e a privação.
a iniciática subida de Marlow ao longo do rio Congo, em busca de Kurtz, define a negro carregado os limites de uma noção de sujeito de raízes iluministas.  não é apenas a lucidez mental de Kurtz que se faz questão, o que fica questionado é a ideia de uma humanidade racional o suficiente para se permitir dominar o mundo. ao escapar à racionalidade, Kurtz torna-se inapropriável pela civilização. a hýbris é ela própria a única medida de si mesma. sem critério, princípio de organização ou objectivo que lhe seja exterior. a única revelação possível, a de um horror sem sujeito, não é uma aquisição racional, como não é racional o fascínio de Marlow perante a revelação.
o coração das trevas marca simultaneamente o espaço físico do interior africano e o campo simbólico da demência de Kurtz. mas marca também, denso e ante-verbal, o espaço interior da própria consciência. ao dar a ver aquilo que há para ver, revela que talvez apenas com o coração isso possa ser apreensível.




1. Joseph Conrad, O Coração das Trevas, trad. de Aníbal Fernandes, Editorial Estampa, 1999, p. 119.