Domingo, 8 de Janeiro de 2012

o coração I





não é material, o sentimento.  entre o corpo e a consciência (e ela mesma uma outra forma de corpo), o sentimento surge como alguma coisa que os integra, mas lhes é exterior. algo capaz de, partindo do corpo e da consciência, se projectar para além deles.
a figura simbólica do coração é talvez a tentativa de dar nome a isto que é ao mesmo tempo matéria e consciência, sensibilidade e representação. a alma poderia ser uma alternativa. mas alma exclui aquilo que é da ordem do corpo, e, sabemo-lo todos, não sabemos se é possível sentir fora do corpo.
resta o coração. seja o coração estilizado, seja o coração carne. de seda e veludo, de fogo ou de gelo,  a escorrer sangue, cravado de espinhos. lugar de vida e lugar de morte.
o pulsar autónomo do ritmo cardíaco corporiza a independência do sentimento, a sua capacidade de modelar a experiência subjectiva. aquém e além da determinação da vontade, o coração sinaliza aquilo que na consciência é corpo, matéria, sensibilidade interior. aquilo que no eu pertence ao outro.
ao nível da literatura, o coração é a marca de algo que no corpo não cabe na palavra. de algo que extravasa o discurso. espaço ante-verbal, ou experiência nas margens da linguagem e que com só com dificuldade acede à representação.
mas é também a marca daquilo que na palavra ultrapassa o corpo: a sempre renovada, mas sempre frustrada, tentativa de dizer aquilo que é a da ordem do sentimento. de o realizar enquanto palavra. de o tornar real, de o fazer coisa comunicável, de o construir como coisa comum.