Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

o ritmo





«Quando se deixou o ritmo penetrar no discurso — essa violência que reordena todos os átomos da frase, que manda escolher as palavras com cuidado, que dá novas cores aos pensamentos, tornando-os mais obscuros, mais estranhos, mais remotos — sem dúvida que se obedeceu a uma utilidade supersticiosa! (…) A prece ritmada deveria chegar mais perto dos ouvidos dos deuses. Acima de tudo, porém, os homens desejavam tirar proveito desse efeito elementar e poderoso que experimentamos quando ouvimos música: o ritmo é um constrangimento; ele suscita um desejo irresistível de cedência, de adesão. (…)» 1



o ritmo é um constrangimento, diz-nos Nietzsche. resta saber o que é que devemos entender por tal.
duas possibilidades, entre outras. primeira: do ponto de vista da produção, a exigência de subordinar a escrita a uma dimensão não imediatamente semântica constitui um condicionamento da liberdade de acção criativa. segunda: do ponto de vista do leitor, a exigência de respeitar o rimo implícito num texto condiciona a autonomia da leitura, na mesma medida em que, por exemplo, a obrigação de seguir um guia na visita a uma cidade condiciona a experiência desse espaço. estas serão acepções negativas deste constrangimento.

mas há também acepções positivas e verdadeiramente constituintes da própria ideia de poesia. são essas que Nietzsche sustenta: o constrangimento do autor e do leitor inerente ao ritmo corresponde à opção de fazer falar a voz de um outro que não pode ser reduzido à vontade e à consciência do autor e do leitor. alguma coisa que, na linguagem, é de ordem não verbal, de ordem não semântica, mas que os condiciona e determina .
fazer falar a voz da língua (alguma coisa próxima do que Derrida designa por tom) significa assumir que a escrita não é um instrumento ao serviço de um sentido, mas é ela mesma voz e dizer, definida a partir e no interior das suas possibilidades e dos seus limites.

é uma constatação a perda de relevância da dimensão ritmo ao nível da maior parte da poesia contemporânea. o assumido prosaísmo da escrita de muitos autores corresponderá ainda a uma herança modernista de recusa dos constrangimentos formais legados pela tradição.
mas não podemos reduzir a dimensão ritmo à obediência a modelos canónicos, métrica padronizada, rima, etc. o que está em causa na valorização do ritmo na poesia é a produção de um sentido que é em larga medida determinado pelas possibilidades da própria língua. não um sentido que  responda de modo imediato pelo querer dizer do autor, não um sentido que seja a tradução limpa e luminosa das suas intenções, mas alguma coisa que de forma obscura se inscreve como possibilidade ou limite no interior das palavras.
ao nível da poesia, o outro da língua é ocupado por muitas figuras, o ritmo é uma delas, uma das fundadoras. com tudo o que têm de forçado, as estruturas formais, métricas e rítmicas, convencionadas forneciam um suporte imediato para o texto e a leitura: o ritmo está de algum modo dado à partida, tanto para o autor, como para o leitor. mas esta condução da escrita ou da leitura por uma voz alheia significa também que (mais do que sempre acontece) o autor não escreve aquilo que quer, mas aquilo que pode. aquilo que, no cruzamento da amálgama de possibilidades da língua e de exigências formais, se lhe revela como actualizável.




1. F. Nietzsche, A Gaia Ciência, F., trad. Maria Helena R. Carvalho, e outros, Relógio D’ Água, Lisboa, 1998, p. 90-91.