«Quando se deixou o ritmo penetrar no
discurso — essa violência que reordena todos os átomos da frase, que manda
escolher as palavras com cuidado, que dá novas cores aos pensamentos,
tornando-os mais obscuros, mais estranhos, mais remotos — sem dúvida que se
obedeceu a uma utilidade supersticiosa!
(…) A prece ritmada deveria chegar mais perto dos ouvidos dos deuses. Acima de
tudo, porém, os homens desejavam tirar proveito desse efeito elementar e
poderoso que experimentamos quando ouvimos música: o ritmo é um
constrangimento; ele suscita um desejo irresistível de cedência, de adesão.
(…)» 1
o ritmo é um
constrangimento, diz-nos
Nietzsche. resta saber o que é que devemos entender por tal.
duas
possibilidades, entre outras. primeira: do ponto de vista da produção, a
exigência de subordinar a escrita a uma dimensão não imediatamente semântica
constitui um condicionamento da liberdade de acção criativa. segunda: do ponto
de vista do leitor, a exigência de respeitar o rimo implícito num texto
condiciona a autonomia da leitura, na mesma medida em que, por exemplo, a
obrigação de seguir um guia na visita a uma cidade condiciona a experiência
desse espaço. estas serão acepções negativas deste constrangimento.
mas
há também acepções positivas e verdadeiramente constituintes da própria ideia de
poesia. são essas que Nietzsche sustenta: o constrangimento do autor e do leitor
inerente ao ritmo corresponde à opção de fazer falar a voz de um outro que não
pode ser reduzido à vontade e à consciência do autor e do leitor. alguma coisa
que, na linguagem, é de ordem não verbal, de ordem não semântica, mas que os
condiciona e determina .
fazer
falar a voz da língua (alguma coisa próxima do que Derrida designa por tom) significa assumir que a escrita não
é um instrumento ao serviço de um sentido, mas é ela mesma voz e dizer,
definida a partir e no interior das suas possibilidades e dos seus limites.
é
uma constatação a perda de relevância da dimensão ritmo ao nível da maior parte
da poesia contemporânea. o assumido prosaísmo da escrita de muitos autores
corresponderá ainda a uma herança modernista de recusa dos constrangimentos formais
legados pela tradição.
mas
não podemos reduzir a dimensão ritmo à obediência a modelos canónicos, métrica
padronizada, rima, etc. o que está em causa na valorização do ritmo na poesia é
a produção de um sentido que é em larga medida determinado pelas possibilidades
da própria língua. não um sentido que
responda de modo imediato pelo querer dizer do autor, não um sentido que
seja a tradução limpa e luminosa das suas intenções, mas alguma coisa que de
forma obscura se inscreve como possibilidade ou limite no interior das
palavras.
ao
nível da poesia, o outro da língua é ocupado por muitas figuras, o ritmo é uma
delas, uma das fundadoras. com tudo o que têm de forçado, as estruturas formais,
métricas e rítmicas, convencionadas forneciam um suporte imediato para o texto
e a leitura: o ritmo está de algum modo dado à partida, tanto para o autor,
como para o leitor. mas esta condução da escrita ou da leitura por uma voz
alheia significa também que (mais do que sempre acontece) o autor não escreve
aquilo que quer, mas aquilo que pode. aquilo que, no cruzamento da amálgama de
possibilidades da língua e de exigências formais, se lhe revela como
actualizável.
1. F.
Nietzsche, A Gaia Ciência, F., trad. Maria
Helena R. Carvalho, e outros, Relógio D’ Água, Lisboa, 1998, p. 90-91.
