frequentemente,
a escrita automática, tal como a escrita produzida sob o efeito do álcool ou de outros narcóticos,
cai na armadilha da falsa espontaneidade. é um falso imediato.
aquilo que parece surgir como singular e
incondicionado na escrita, porque prescinde dos mecanismo de auto-censura do
sujeito, pode resultar apenas na
reprodução mais ou menos empobrecida de lugares comuns.
aquilo que se pretende
espaço de uma originalidade sem concessões, resulta quase sempre na produção de
maneirismos linguísticos sem suporte criativo nem espessura semântica. acresce
o paradoxo de que esses textos serão, na maior parte dos casos, sujeitos a uma
revisão tão lúcida e distanciada quanto possível, e que, sobretudo, a relação
de leitura se coloca quase sempre nesse plano de lucidez e distanciamento.
por
isso, a reescrita corresponde a uma exigência da escrita, mesmo nos casos em
que o processo criativo primário supõe uma relação com o texto mais intuitiva
do que racionalizada.
mas
quais são os riscos de, sob a aparência de rigor e de exigência crítica, apagar
na reescrita precisamente aquilo que constituía a marca da singularidade do
autor ?
onde
é que a auto-correcção corresponde a extirpar do texto aquilo que poderia
constituir a afirmação de uma identidade criativa, rejeitando as marcas da diferença,
e reconduzindo o texto à norma ou às expectativas comuns? o que é que naquilo
que é prescindível num texto corresponde a ruído, ou, ao contrário, onde é que
essa rejeição do ruído corresponde a uma neutralização que esvazia a própria
vitalidade da escrita ?
a
exigência de revisão e reescrita dos textos resulta, antes do mais, de um
modelo de literatura entendido como fixação de um discurso verbal consciente.
um discurso modelado de acordo com critérios que são os do autor, mas que são
partilhados e terão de ser reconhecíveis, e se possível aceites, pelos leitores
potenciais.
este é já um espaço de cedência e de expropriação autoral. mas
qualquer exercício de autocrítica é, ao mesmo tempo, um trabalho de afirmação
da identidade do autor e uma inevitável cedência — à língua e aos leitores.
