Segunda-feira, 23 de Janeiro de 2012

a reescrita II




frequentemente, a escrita automática, tal como a escrita produzida sob o efeito do álcool ou de outros narcóticos, cai na armadilha da falsa espontaneidade. é um falso imediato. 
aquilo que parece surgir como singular e incondicionado na escrita, porque prescinde dos mecanismo de auto-censura do sujeito, pode resultar apenas na reprodução mais ou menos empobrecida de lugares comuns. 
aquilo que se pretende espaço de uma originalidade sem concessões, resulta quase sempre na produção de maneirismos linguísticos sem suporte criativo nem espessura semântica. acresce o paradoxo de que esses textos serão, na maior parte dos casos, sujeitos a uma revisão tão lúcida e distanciada quanto possível, e que, sobretudo, a relação de leitura se coloca quase sempre nesse plano de lucidez e distanciamento.
por isso, a reescrita corresponde a uma exigência da escrita, mesmo nos casos em que o processo criativo primário supõe uma relação com o texto mais intuitiva do que  racionalizada.
mas quais são os riscos de, sob a aparência de rigor e de exigência crítica, apagar na reescrita precisamente aquilo que constituía a marca da singularidade do autor ?
onde é que a auto-correcção corresponde a extirpar do texto aquilo que poderia constituir a afirmação de uma identidade criativa, rejeitando as marcas da diferença, e reconduzindo o texto à norma ou às expectativas comuns? o que é que naquilo que é prescindível num texto corresponde a ruído, ou, ao contrário, onde é que essa rejeição do ruído corresponde a uma neutralização que esvazia a própria vitalidade da escrita ?

a exigência de revisão e reescrita dos textos resulta, antes do mais, de um modelo de literatura entendido como fixação de um discurso verbal consciente. um discurso modelado de acordo com critérios que são os do autor, mas que são partilhados e terão de ser reconhecíveis, e se possível aceites, pelos leitores potenciais. 
este é já um espaço de cedência e de expropriação autoral. mas qualquer exercício de autocrítica é, ao mesmo tempo, um trabalho de afirmação da identidade do autor e uma inevitável cedência — à língua e aos leitores.