Domingo, 22 de Janeiro de 2012

a reescrita I





o trabalho de revisão ou de reescrita de um texto consiste, na maior parte das vezes, no exercício crítico de rejeitar palavras, frases, prescindir dos excessos barrocos das construções, da sobrecarga de adjectivos, das repetições, do óbvio e das frases reconhecíveis
é um trabalho de de auto-depuração, um trabalho de auto-censura. mas esta auto-censura é simultaneamente um dos fundamentos da liberdade criativa. será muito difícil que exista um bom escritor, em sentido lato (como um bom pintor, um bom músico, etc.), sem a correcta capacidade de se desdobrar criticamente, criando a distância, reflexa e comprometida, que lhe permita rejeitar aquilo que antes tinha produzido.
mas neste processo, parte determinante daquilo a que chamamos criação artística, não há regras nem fórmulas. diante de um texto, qual é o número de palavras de que é possível prescindir sem que a sua força e o seu sentido sejam afectados? no balanço de perdas e ganhos, o que é que se ganha com o que se perde, o que é que se perde com o que se ganha?
talvez possa constituir regra a ideia de que, num processo de revisão, cada palavra deve saber justificar a sua presença. se é prescindível, talvez esteja a mais. mas isto ainda decorre de opções estéticas, e essas são sempre amplamente questionáveis.