« I
fez-se fotografar
no quarto pequeno
que uma ou outra
clarabóia iluminava
uma estante de
livros e um tabuleiro de xadrez
em pano de fundo
qualquer coisa assim
a expressão
impassível quase atenta os dedos
tocando ao de
leve a corrente do relógio
um apontamento à
margem do tempo
feito a lápis
para mais tarde ser apagado.
(…)» 1
Este
é um livro ambicioso. Ao longo das mais de oitenta páginas de texto (e a
dimensão não é secundária no projecto), encontramos uma escrita muito segura de
si mesma e uma apropriação consciente do espaço linguístico e representacional em
que se pretende inscrever. A linguagem é segura: aquilo que se vê ou que se
diz, vê-se e diz-se através de uma rede de remissões que tem na linguagem o seu
fio condutor, mas relativamente à qual esta é autónoma.
Este
fio condutor desdobra-se, no plano temático, numa intersecção entre o espaço e
o tempo, entre a história e a experiência individual, entendidos uns e outros como possibilidades de mediação: mediação do
tempo pela história, mediação da história pelo presente, mediação do presente
pela não coincidência de um espaço com a sua sempre subjectiva apreensão, mediação do sujeito pelo tempo e pela história em que se inscreve.
Segura
e consciente, a escrita de Tatiana Faia desenvolve-se num patamar de qualidade muito homogéneo.
Talvez não consiga, no entanto, alcançar o brilho que parece prometer. Não estará
em causa força do projecto, mas importa que nos interroguemos o que é que neste
livro não resulta tão bem quanto poderia.
Não nos propomos aqui a uma análise
desenvolvida. O livro é denso o suficiente para não caber numa curta abordagem.
Queremos apenas interrogarmo-nos porque é que, apesar da segurança da escrita,
raramente os textos, individualmente considerados, atingem o brilho que o todo
parece afirmar como possível. O todo da escrita é de uma assinalável solidez. No
entanto, e sem que individualmente haja poemas maus, texto após texto a leitura
torna-se algo deceptiva.
«Intermezzo
agora todas as
flores de inverno brotam do cansaço
lançam de sobre
as suas cantareiras olhares curiosos
fulvas ou azuis iguais
a rápidas pálpebras que fenecem
recuada a
rapariga permanece estátua no jardim
de onde o inverno
tende para a madrugada
lava o rosto
deixa a água fria correr nas mãos
um pouco dela
trai-se na precisão de alguns gestos deixados
para lugares em
que somos de nós próprios penhor
(…)» 2
Um
excerto como este identifica, provavelmente, aquilo que de menos
conseguido este livro nos traz. Quer no imaginário, quer no vocabulário,
estamos desde o primeiro verso em pleno território da poesia que se pensa como
poesia. Esta relação de pertença tão imediata compromete o distanciamento
crítico do olhar que perspectiva o mundo e da linguagem que o constrói.
Resulta
uma escrita redonda, que parece optar pela segurança de um vocabulário e de um
imaginário quase imediatamente associáveis ao discurso poético. A um primeiro
nível, seria de notar a falta de acuidade linguística. Para além da condescendência
face à esfera linguística do “poético”, e de algum voluntarismo face à própria
ideia de poesia, é perceptível uma espécie de crença, provavelmente consciente,
no poder das palavras. A delicadeza com que, em cada verso, elas são escolhidas
traduz uma relação íntima e sensível com a linguagem, mas também a cedência à
neutralização da força semântica das palavras pela sua inscrição no espaço,
parcialmente auto-anestesiado, do “poético”.
É, evidentemente, respeitável a opção
por um registo que explore as possibilidades do espaço simbólico da poesia numa
acepção predominantemente lírica. Mas não é o lirismo que está em causa. O que está
em causa talvez seja a opção por postura frequentemente demasiado subserviente
à própria ideia de lírica, no que em parte se auto-anestesia. Justa ou não, (a
percepção d) este auto-anestesiamento parece tolher a força potencial desta
escrita.
Aquilo
que em cada momento e em cada contexto cultural cada artista (escritor, músico,
artista plástico, etc.) produz como proposta artística corresponde a uma
apropriação mais ou menos singular e diferenciada das possibilidades de
desenvolvimento decorrentes do estado e da herança acessíveis na linguagem em
que se inscreve. De algum modo, em cada momento, todos os criadores de uma dada
linguagem (a poesia, no caso) têm acesso e estão expostos a um conjunto muito semelhante
de pressupostos estéticos e culturais. Parte do processo de definição de uma
identidade artística passa pela opção, nem sempre voluntária e consciente, das
suas referências culturais e estéticas. Escolhe-se uma linguagem,
identificam-se os interlocutores e procura-se demarcar um espaço de exploração
pessoal. Este trabalho de exploração é feito por Tatiana Faia de uma forma muito
segura. Faltará, talvez, arriscar ultrapassar as fronteiras protectoras do
antecipável. Faltará (mas isto, como toda esta análise, é amplamente
questionável) um pouco mais de sangue.
1.
Tatiana Faia, “Siracusa, I”, Lugano,
Artefacto, 2011 (92 p.), p. 71.
2.
Idem, p. 20.
