domingo, 29 de janeiro de 2012

Tatiana Faia, Lugano




« I

fez-se fotografar no quarto pequeno
que uma ou outra clarabóia iluminava
uma estante de livros e um tabuleiro de xadrez
em pano de fundo qualquer coisa assim
a expressão impassível quase atenta os dedos
tocando ao de leve a corrente do relógio
um apontamento à margem do tempo
feito a lápis para mais tarde ser apagado.

(…)» 1


Este é um livro ambicioso. Ao longo das mais de oitenta páginas de texto (e a dimensão não é secundária no projecto), encontramos uma escrita muito segura de si mesma e uma apropriação consciente do espaço linguístico e representacional em que se pretende inscrever. A linguagem é segura: aquilo que se vê ou que se diz, vê-se e diz-se através de uma rede de remissões que tem na linguagem o seu fio condutor, mas relativamente à qual esta é autónoma.
Este fio condutor desdobra-se, no plano temático, numa intersecção entre o espaço e o tempo, entre a história e a experiência individual, entendidos uns e outros como possibilidades de mediação: mediação do tempo pela história, mediação da história pelo presente, mediação do presente pela não coincidência de um espaço com a sua sempre subjectiva apreensão, mediação do sujeito pelo tempo e pela história em que se inscreve.
Segura e consciente, a escrita de Tatiana Faia desenvolve-se num patamar de qualidade muito homogéneo. Talvez não consiga, no entanto, alcançar o brilho que parece prometer. Não estará em causa força do projecto, mas importa que nos interroguemos o que é que neste livro não resulta tão bem quanto poderia. 
Não nos propomos aqui a uma análise desenvolvida. O livro é denso o suficiente para não caber numa curta abordagem. Queremos apenas interrogarmo-nos porque é que, apesar da segurança da escrita, raramente os textos, individualmente considerados, atingem o brilho que o todo parece afirmar como possível. O todo da escrita é de uma assinalável solidez. No entanto, e sem que individualmente haja poemas maus, texto após texto a leitura torna-se algo deceptiva.

«Intermezzo

agora todas as flores de inverno brotam do cansaço
lançam de sobre as suas cantareiras olhares curiosos
fulvas ou azuis iguais a rápidas pálpebras que fenecem
recuada a rapariga permanece estátua no jardim
de onde o inverno tende para a madrugada
lava o rosto deixa a água fria correr nas mãos
um pouco dela trai-se na precisão de alguns gestos deixados
para lugares em que somos de nós próprios penhor
 (…)» 2

Um excerto como este identifica, provavelmente, aquilo que de menos conseguido este livro nos traz. Quer no imaginário, quer no vocabulário, estamos desde o primeiro verso em pleno território da poesia que se pensa como poesia. Esta relação de pertença tão imediata compromete o distanciamento crítico do olhar que perspectiva o mundo e da linguagem que o constrói.
Resulta uma escrita redonda, que parece optar pela segurança de um vocabulário e de um imaginário quase imediatamente associáveis ao discurso poético. A um primeiro nível, seria de notar a falta de acuidade linguística. Para além da condescendência face à esfera linguística do “poético”, e de algum voluntarismo face à própria ideia de poesia, é perceptível uma espécie de crença, provavelmente consciente, no poder das palavras. A delicadeza com que, em cada verso, elas são escolhidas traduz uma relação íntima e sensível com a linguagem, mas também a cedência à neutralização da força semântica das palavras pela sua inscrição no espaço, parcialmente auto-anestesiado, do “poético”.
É, evidentemente, respeitável a opção por um registo que explore as possibilidades do espaço simbólico da poesia numa acepção predominantemente lírica. Mas não é o lirismo que está em causa. O que está em causa talvez seja a opção por postura frequentemente demasiado subserviente à própria ideia de lírica, no que em parte se auto-anestesia. Justa ou não, (a percepção d) este auto-anestesiamento parece tolher a força potencial desta escrita.

Aquilo que em cada momento e em cada contexto cultural cada artista (escritor, músico, artista plástico, etc.) produz como proposta artística corresponde a uma apropriação mais ou menos singular e diferenciada das possibilidades de desenvolvimento decorrentes do estado e da herança acessíveis na linguagem em que se inscreve. De algum modo, em cada momento, todos os criadores de uma dada linguagem (a poesia, no caso) têm acesso e estão expostos a um conjunto muito semelhante de pressupostos estéticos e culturais. Parte do processo de definição de uma identidade artística passa pela opção, nem sempre voluntária e consciente, das suas referências culturais e estéticas. Escolhe-se uma linguagem, identificam-se os interlocutores e procura-se demarcar um espaço de exploração pessoal. Este trabalho de exploração é feito por Tatiana Faia de uma forma muito segura. Faltará, talvez, arriscar ultrapassar as fronteiras protectoras do antecipável. Faltará (mas isto, como toda esta análise, é amplamente questionável) um pouco mais de sangue.




1. Tatiana Faia, “Siracusa, I”, Lugano, Artefacto, 2011 (92 p.), p. 71.
2. Idem, p. 20.