Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

a tradução




é um trabalho determinante na configuração da língua como literatura. a transposição para português de textos escritos em outros idiomas deve ser entendida, em pleno direito, como um processo de criação de língua. 
tal é particularmente notório ao nível da ficção.  num espaço literário como o português, em que mal ou bem grande parte do romance e novela consumidos são originalmente produzidos em outros idiomas, a experiência dominante do português como língua literária faz-se a partir de traduções.
o autor tem uma liberdade de acção e uma possibilidade de risco que os tradutores raramente assumem, e isto não é necessariamente um defeito. se a tendência da tradução para uniformizar os registos linguísticos poderá resultar em algum empobrecimento da língua, também permite a sua redução àquilo que ela possui de mais basilar. talvez empobrecendo o vocabulário e a sintaxe, mas ganhando em acuidade.
se em cada texto aquilo que é dito se insere num movimento mais vasto de modelação da escrita, o processo de tradução corresponderá a essa modelação da língua a partir de dados que lhe são exteriores. a partir do confronto com um outro que nunca é inteiramente apropriável. mesmo que mecânica, niveladora e empobrecedora, a tradução responde sempre por esta exigência de permanente recriação. da língua e da literatura.