é
um trabalho determinante na configuração da língua como literatura. a transposição para
português de textos escritos em outros idiomas deve ser entendida, em pleno
direito, como um processo de criação de língua.
tal é particularmente notório
ao nível da ficção. num espaço literário
como o português, em que mal ou bem grande parte do romance e novela consumidos
são originalmente produzidos em outros idiomas, a experiência dominante do
português como língua literária faz-se a partir de traduções.
o
autor tem uma liberdade de acção e uma possibilidade de risco que os tradutores
raramente assumem, e isto não é necessariamente um defeito. se a tendência da
tradução para uniformizar os registos linguísticos poderá resultar em algum
empobrecimento da língua, também permite a sua redução àquilo que ela possui de
mais basilar. talvez empobrecendo o vocabulário e a sintaxe, mas ganhando em acuidade.
se
em cada texto aquilo que é dito se insere num movimento mais vasto de modelação
da escrita, o processo de tradução corresponderá a essa modelação da língua a
partir de dados que lhe são exteriores. a partir do confronto com um outro que
nunca é inteiramente apropriável. mesmo que mecânica, niveladora e
empobrecedora, a tradução responde sempre por esta exigência de permanente
recriação. da língua e da literatura.
