quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Gabriel D’Annunzio, As Virgens






«Eu vi com estes olhos mortaes em breve tempo abrirem-se, brilharem e desapparecerem uma depois d’outra tres almas sem par: as mais bellas, as mais ardentes e as mais desgraçadas que jamais apparecerão na extrema descendencia de uma raça imperiosa.
Nos logares por onde a sua desolação, a sua graça e o seu orgulho passavam diariamente, recolhi eu lucidos e terriveis pensamentos que as antiquissimas ruinas das cidades illustres nunca me tinham sugerido. Para descobrir o mysterio da sua remota ascendencia, explorei a profundidade dos vastos espelhos familiares, onde talvez ellas não viram as suas proprias imagens banhadas pela palidez que annuncia a dissolução depois da morte; pacientemente indaguei por entre as velhas coisas consumidas, por sobre as quaes as suas mãos frias ou febris pousavam, talvez do mesmo modo que outras, já desde largo tempo convertidas em pó, tinham pousado.
Assim as conheci no tédio dos dias vulgares, e por isso ellas se tornaram as creações do meu desejo e da minha perplexidade. (…)» 1


O esteticismo nunca é política e humanamente neutro. Não há valores artísticos que se possam substituir ou sobrepor à concepção mais abrangente do humano. Quaisquer que sejam os princípios artísticos, quaisquer que sejam as realizações finais. Não apenas os fins não justificam os meios, como, sobretudo, as obras de arte nunca são politicamente neutras ou inocentes.
As Virgens ( Le Vergini delle Rocce - de 1896) , de Gabriel D’Annunzio é um espantoso exemplo dos paradoxos envolvidos nas relações entre o discurso da arte e o discurso da política e dos valores. Raramente um livro com uma tão sensível e uma tão intensa carga lírica comporta ao mesmo tempo uma tão cruel dimensão política.
No plano político, este é um livro simplesmente reaccionário, quase grotesco na sua anti-modernidade, e quase insuportável se tivermos em conta as derivas totalitárias da primeira metade do século XX, com as quais o autor foi claramente conivente.
No plano das concepções identitárias, a imagem de mulher que aqui se afirma é, também ela, absolutamente inaceitável: a mulher sofredora, exposta por natureza e condição à discriminação masculina, ultimamente destinada à maternidade — tudo isto sob as vestes de uma idealização da mulher e sua sensibilidade intelectual e física.
E, no entanto, é um livro surpreendente. Apesar de tudo isto, o mundo configurado resulta quase desejável. Desejáveis os longos palácios, onde a decadência é sobretudo espessura histórica (ou projecção de um mundo que nunca chegou a existir). Desejável o confinamento das personagens, quase voluntariamente encurraladas entre a história, a natureza e os seus próprios limites. Desejável sobretudo a idealizada sensibilidade que, mais do que quaisquer princípios políticos ou éticos, se constitui como instrumento privilegiado de experiência do mundo.
As Virgens seria o primeiro volume de uma trilogia que nunca chegou a ser terminada. É quase um longo poema em prosa. Lírico, arrebatado, sensual e místico. O decadentismo afirma-se aqui como princípio estruturante da percepção do real: mais como um ideal de mundo do que como um ideal estético — um decadentismo que torna clara a sua quase patológica recusa da modernidade.
É hoje difícil de imaginar como é que o discurso político de D’Annunzio poderia surgir, nem sequer como aceitável, como verosímil:

«As estirpes magnificas — fundadas, renovadas, reforçadas com o nepotismo e com a guerra de saques — degeneravam uma a uma, liquidavam-se na nova lama, submergiam, desapareciam. As illustres riquesas accumuladas nos seculos de rapinas felizes e de fausto protector da arte, expunham-se aos revezes da Bolsa.» 2

O elitismo de classe e de género, o racismo de condição, o pressuposto à época já amplamente anacrónico da distinção de natureza e de condição entre os indivíduos e os géneros, a recusa do imperativo moderno da autodeterminação, surgem aqui de forma tão sobre-encenada que chegam a ser patéticos. O paradoxo é que, embora ideológica e historicamente responsáveis diante das décadas que se lhe seguiramestes vectores chegam a parecer esteticamente aceitáveis. Note-se, a propósito, como as leituras de Nietzsche à luz de princípios políticos de extrema-direita podem dar as mais repugnantes consequências.
O dado mais inaceitável talvez seja o modo como o desejo de emancipação individual e colectiva (princípio fundador da modernidade, frequentemente entendido como motor da  própria história) é aqui subvertido para dar lugar à mais inaceitável das tiranias: aquela que se funda no pressuposto da assimetria da condição humana:

«O Estado não deve ser mais que uma instituição perfeitamente disposta para favorecer a elevação gradual de uma classe privilegiada para uma forma ideal de existencia. Sob a egualdade economica e politica a que aspira a democracia, vós outros os encaminhareis a formar uma nova oligarchia, uma nova escola de força; e conseguireis, antes ou depois domar as multidões em vosso proveito. Não vos será muito dificil, na verdade, reconduzir a grey á obediência. As plebes conservam-se sempre escravas e teem uma nativa necessidade de estender as mãos ao vencedor. Jamais existirá n’elles, até ao fim dos seculos, o sentimento da liberdade (…)» 3


(Uma última observação: no exemplar do livro que aqui se transcreve, alguém acrescentou a lápis, na margem esquerda, a seguinte nota:
é o domas …”
Talvez possa servir como princípio de contra-argumentação.)






1. Gabriel D’Annunzio, As virgens, (trad. de Vasco Valdez), Livraria Editora Guimarães, Lisboa, 1905, p. 5-6.
2. Idem, p. 59.
3. idem, 44.