quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Gabriel D’Annunzio, O Intruso





«Comparecer perante um juiz e dizer-lhe: “Commetti um crime. Essa creatura não teria morrido se eu não a tivesse morto. Sou eu, Tullio Hermil, que sou um assassino. Premeditei esse assassinio em minha casa. Perpetrei-o com perfeita lucidez de consciencia, methodicamente, com toda a segurança. Depois continueí a viver na minha casa com o meu segredo, durante um anno inteiro, até hoje. É hoje o anniversario. Entrego-me nas suas mãos. Escute-me, julgue-me.
Posso comparecer ante um juiz? Posso falar-lhe assim?
Não posso nem quero. (…). » 1


Com uma força analítica e literária pouco comum, Tullio Hermil, o protagonista deste livro, introduz-nos aqui numa narrativa que terminará com uma morte que, apesar de tudo, ninguém verdadeiramente irá lamentar.
Estamos perante mais uma encarnação da versão de D’Annunzio do sobre-humano nietzscheano: um homem, intelectualmente elitista, economicamente privilegiado, que se acha autorizado por natureza e condição a moldar a moral aos seus próprios propósitos.
Toda a narrativa é um jogo de infidelidades cruzadas. Tullio, apesar de ele próprio incapaz de romper com a amante, não será capaz de suportar a infidelidade da mulher. O sujeito amoral acaba submerso pelos preconceitos morais que ele próprio não acata.
Neste seu segundo romance (ponto de partida para o último filme de Luchino Visconti, L’Innocente, de 1976), D’Annunzio prossegue na exploração enfática das premissas decadentistas, esteticistas e ultra-românticas, cruzadas com uma leitura muito tendenciosa do pensamento de Nietzsche. O ciúme, que constituirá poucas décadas depois o eixo narrativo do Em Busca do Tempo Perdido, de Proust, surge aqui como motor deste livro, também ele narrado na primeira pessoa, também ele de intensa carga sensorial e analítica.
Ao mesmo tempo que encena o que resta da herança romântica (por natureza, ela mesma já reaccionária face às transformações e às promessas do Iluminismo), D’Annunzio projecta o fio de consciência como linha estratégia de escrita: um olhar interior, assumidamente perspectivado, reduzindo voluntariamente o que aconteceu àquilo que o narrador experienciou. Melhor, àquilo que disso o narrador quer contar. D’Annunzio é um autor onde, como poucos, a afecção dos sentidos, a comoção do corpo ou do coração, constituem o verdadeiro prisma através do qual a realidade é perspectivada. Este perspectivismo (também ele nietzscheano) é aqui elevado à condição de princípio de organização da escrita e da experiência:

«Parece-me ver ainda tudo. Nada me escapou n’aquella hora, nem tão pouco hoje. O mundo real desvanecera-se por completo. Só subsistia um mundo ficticio no meio do qual eu suffocava de angustia, de coração comprimido, incapaz de articular uma syllaba, e, contudo, singularmente lúcido, como se fosse espectador de uma scnena de theatro. Sobre a mesa ardia uma vela, que prestava uma especíe de realidade visivel a esta apparencia de feição scenica, porque a pequena chamma movediça parecia agitar em volta d’ella esse vago horror que os actores d’um drama espalham no ar ambiente com os seus grandes gestos de desespero ou de ameaça.» 2

O livro é muito bom. Não é perfeito, como não o é nenhum dos livros do autor. Mas permanece a força e a densidade da construção psicológica das personagens, o sobre-investimento sensorial e estético, a construção quase operática de uma elevação afectiva não raras vezes próxima do kitsch, mas de uma intensidade que só raras vezes a literatura é capaz de produzir.
Cortando com a herança naturalista (mas impossível de integrar no modernismo triunfante), ideologicamente questionável (quando não verdadeiramente inaceitável), compreende-se que Gabriel D’Annunzio vá caindo no esquecimento. E, no entanto, é um autor de uma força cénica (teatral, operática, cinematográfica, literária, o que se quiser) como poucos. Tudo o que diz ou narra é resultado desta encenação, tanto mais válida quanto for precedida pela crença deliberada de quem aceita acreditar naquilo de que, conscientemente, duvida.




1. Gabriel D’Annunzio, O Intruso ( L’Innocente, 1892), trad. de Luiz Cardoso, Guimarães & C.ª — Editores, 2ª edição, 1915, p. 5.
2. Idem, p. 134, 135.