domingo, 12 de fevereiro de 2012

João Miguel Henriques, Isso Passa




 «OS BICHOS

os bichos comem a terra suja da estação
e as plantas que crescem no quintal da frente.
crescem por entre cardos e ramos secos
e os bichos engolem cardos por todo o lado.
os homens comem os bichos cheios de feridas,
da cabeça até ao osso.
nos dias de sementeira andam curvados
por todo o quintal da frente.
comem os bichos que se aventuram demasiado
e plantam cardos novos, gordos de sangue.
à noite ajudam com vinho grande
a digestão dos bichos cheios de cardos. » 1


Este é um texto excepcional, inscrito num imaginário de raiz surrealista (cruzado com um olhar de uma secura hiperrealista) que vai sendo pouco comum na poesia contemporânea, ou que, pelo menos, é raro encontrar com esta firmeza e este fulgor.
Isso Passa é uma antologia, da responsabilidade de Soledade Santos e de Nuno Dempster, que reúne textos dos três primeiros livros do autor, aqui acrescidos de um quarto, inédito. Encontramos igualmente textos do autor no blogue Quartos Escuros.
No seu melhor, a poesia de João Miguel Henriques é um bom trabalho de apropriação da experiência subjectiva (a memória, a imaginação, a perspectivação do real por um olhar assumidamente condicionado, etc.) e da consciência do mundo como construção cultural para as transpor para propostas de uma experiência comum. A subjectividade resulta intensificada pela sua inscrição no plano representacional de referentes partilhados, e as remissões culturais adquirem um acréscimo de profundidade pela subjectivização do olhar que as perspectiva.


«TERRA

inverno já um pouco
meio escuro

e damos por nós apensar na puta da terra
não tanto no sentido de origem
como seria dizer por exemplo
ir à terra para a matança do porco
mas algo mais físico e dramático
fundamental até
do tipo
a puta da terra que nos há-de cobrir a todos

assim ficamos a pensar
estendidos no quarto

o inverno reproduz-se em cada canto da casa.» 2


Os melhores textos conjugam, na sua maior parte, a dupla e difícil exigência de espontaneidade e de rigor da escrita. Neste poema, o deslizar consciente e consentido para um vocabulário coloquial assegura os índices de (encenação da) espontaneidade, ao mesmo tempo que um rigoroso trabalho sobre o texto o reduz aos seus elementos básicos, assegurando a sua eficácia.
Em outros poemas, contudo, é perceptível a ameaça da remissão do texto para o estrito plano da poesia que se produz como poesia. O rigor da escrita por vezes parece constituir um espartilho que inibe a inventividade, reconduzindo-a para o plano de um imaginário poético quase auto-suficiente.
Este é um problema partilhado por muitos dos melhores autores que apostam nesta dimensão: por vezes, o rigor da escrita ameaça fazer perder a espontaneidade e o fulgor criativo. Isto não compromete a escrita, mas parece induzir uma autocensura criativa que não raras vezes desemboca no puro formalismo.
Não será exactamente o caso de João Miguel Henriques, mas nota-se, mais vezes do que o desejável, que a depuração da escrita conduz à manutenção dos textos no interior de um espaço vocabular e simbólico algo rarefeito e que em parte se auto-anestesia. A espontaneidade que frequentemente encontramos nos textos publicados no seu blogue perde-se por vezes na transposição para o papel.
Nos seus quarenta e cinco poemas, e apesar da sua homogeneidade qualitativa, este livro talvez valha sobretudo pela presença de alguns textos de um fulgor criativo claramente acima da média — da média de todo o livro, e da média da poesia contemporânea.




1. João Miguel Henriques, Isso Passa, Artefacto, 2011, (67 p.), p. 14.
2. Idem, p. 45.